Publicado 19/11/2020 - 06h26 - Atualizado 19/11/2020 - 06h26

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Muita preocupação com as eleições nos Estados Unidos e nada com o Brasil. Atingimos o recorde de 14 milhões de desempregados e isso não tem nada a ver com a pandemia. Bem antes, muito antes, desde o empichamento da senhora presidenta Dilma Roussef, o desemprego já estava em 13 milhões, herança deixada pelo governo lulista e mantida pela citada senhora acima. Nenhuma preocupação, portanto. Nem naquele momento e nem agora.
E bastou um vírus para pôr o planeta de cabeça para baixo. E a ideia política de que a economia era a coisa mais importante foi para o ralo das goelas dos incompetentes. É a saúde pública, estúpido! – respondo, a um consultor político norte-americano do qual não lembro o nome, e nem sequer vou me dar ao trabalho de pesquisar no google.
Esfriou um pouco e vou buscar um agasalho no guarda-roupa. E aí vem a boa preguiça de ficar quieto no sofá e tentar achar alguma coisa interessante na televisão. Nada. E tiro um cochilo de alguns minutos. É o suficiente para entender que a humanidade dos políticos é a mesma dos batráquios que frequentam as margens da Lagoa do Taquaral – e aqui peço escusas aos sapos e rãs pela analogia. Propaganda eleitoral gratuita, diz a tela da tevê. E bem sabe o raro leitor que não existe almoço grátis. E muito menos propaganda política. Ninguém merece: pandemia com horário político. E o raro leitor também já entendeu que escrevo bem antes das eleições municipais. O que absolutamente não muda nada.
Digo a mim mesmo para não me preocupar com essas coisas políticas. Mas não consigo. E saio do sofá para higienizar ovos e picar legumes para a sopa da noite. Gosto de sopa. Qualquer uma. E isso sim é motivo para me preocupar, cuidar do meu simples paladar e agradecer aos deuses pelas mãos santas da moça-que-manda-em-mim, senhora-maior dos temperos, do equilíbrio do sal, da cebola, da pimenta do reino e, segredo maior, do tempo de fervura.
E Joe Biden Harris é o novo presidente eleito dos Estados Unidos. Donald Trump faz jus ao seu prenome: é um pato manco ( e o raro leitor ainda se lembra do pato Donald, bem sei) – e agora vai começar a tomar café requentado na Casa Branca. Vai espernear, é claro, como acontece com quem é ruim de perder. Mas nunca é tarde para aprender a imponderabilidade da política – e com isso espero que ele não atrapalhe a democracia mais longeva do planeta. Rei morto, rei posto, e a vida segue o seu caminho histórico.
Fico sabendo da vitória de Biden e trato de seguir a minha vida. E lavo a louça do almoço e cuido de lavar dois pés de alface, folha por folha. E trato de ligar para o meu barbeiro para avisá-lo que irei cortar o cabelo na segunda-feira, pela manhã. Há sete meses que a moça-que-manda-em-mim apara meus cabelos e a barba. Mas a prosa do salão de barbeiro faz um pouco de falta para os meus ouvidos descansados de piadas infames e comentários políticos e esportivos surreais.
E o noticiário político nacional voltou a deixar a minha preocupação ainda mais latente. Não é a economia, estúpido! – e, sim, a felicidade de todos os brasileiros. E isso significa emprego, escola e saúde pública. Entendo que tudo isso depende de dinheiro, é claro. Mas a economia, segundo os políticos, é a grana dos banqueiros nacionais e internacionais – que vivem em uma sociedade paralela e vivendo por osmose da pobreza dos catadores de emprego.
Estou preocupado com o destino do meu País. Jair Bolsonaro vai ter que procurar um outro dono para lhe servir a ração diária para mitigar a sua fome política. Ou isso ou ele vai invadir nossas despensas para conseguir o dinheiro que precisa para bancar o auxílio emergencial que lhe garantiu temporariamente uma certa popularidade. Janeiro está chegando e o auxílio emergencial estará indo para a bacia das almas. É isso. E apenas isso.
Bom dia.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico.

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