Publicado 15/11/2020 - 08h49 - Atualizado 15/11/2020 - 08h49

Por


Escrevo antes do Tempo. E não faço ideia se Trump ou Biden chegaram em seus desejos políticos. Trump já vinha acusando as eleições de estarem sendo trapaceadas. Uma ofensa aos milhões de eleitores de seu País. E, sinceramente, tanto faz como tanto fez se Trump ou Biden for eleito presidente da mais velha democracia do planeta. Com um ou com outro, os Estados Unidos seguirá na trilha da liberdade democrática.
Chato mesmo é um jornalista, Rodrigo Constantino, falar asneiras sobre o estupro de uma jovem. Jornalista também pode ser um idiota como tantos outros. E a vida segue. Cada vez mais triste por conta dos idiotas que brotam na terra das palavras como erva daninha. Mas não posso evitar o sentimento amargo da vergonha do alheio. E deixo claro que Rodrigo Constantino não me representa. Aliás, penso eu, que ele não representa sequer a sua família. E a compaixão lhe dedico pela sua escolha moral. Ou melhor, imoral. E vou tratando de cuidar das minhas pequenas responsabilidades, fazer o molho de tomate para a lasanha de sábado, a salada de frutas e lavar a louça do almoço.
Levi Ramiro, o nome do meu canário, me diz que Binden será eleito presidente dos Estados Unidos. E isso significa que Jair Messias Bolsonaro terá que procurar outro dono pra chamar de seu. A vergonha é nacional. Ou internacional. Aliás, se Trump for reeleito a vergonha continua.
Hoje é domingo, dia 15, e escrevo a presente crônica no dia cinco, numa sexta-feira de bom azul e que contraria os prognósticos de chuva e madrugada fria. A Natureza tem seus desígnios, que a soberba de alguns homens teimam em rebater, e assim cuido de ficar só espiando o sol desaparecer e a lua cheia que vai se esgueirando por entre os prédios e iluminando algumas nuvens andarilhas que, pelo visto, devem morar lá pelos lados da Nova Campinas.
E lembro, nessa sexta-feira de palavras antecipadas, que um dos meus passeios preferidos em tempos mais saudáveis era, nas manhãs de sábados, onde não ia para comprar finas iguarias, mas atrás de aromas de raízes, cheiro verde e manjericão, além das frutas e flores. Sempre acabava comprando uma ou outra coisa, mas ia lá mesmo para apreciar lembranças e aromas.
Quando ainda estava por lá, Wilsinho, sobrinho do saudoso Pachola, sempre me oferecia um sorriso e boas histórias do local: Bar do Pachola. Ele vendeu o bar e se mandou para Goiânia. Ligo o rádio para ter notícias dele, mas as ondas curtas, médias moduladas não me dizem nada.
Na infância do Taquaral tinha a torrefação do Café Tupy & Negrão. Três quadras antes ficava a usina do Açúcar Pérola na avenida Nossa Senhora de Fátima. A torrefação ficava na rua Adalberto Maia. Dava água na boca sentir os aromas do açúcar e do café torrado se combinando pelas manhãs, a molecada indo para a escola, o cheiro de pão da padaria – e do sabão minerva dos nossos uniformes. E inesquecível era o cheiro do então Grupo Escolar João Lourenço Rodrigues, da cera das salas de aula, os tacos brilhando, do óleo de peroba das carteiras... Mas foi apenas na quinta série, na admissão, que senti, pela primeira vez, o cheiro do tinteiro. E ainda ouço o som da pena da caneta fazendo música com a folha de papel no caderno de caligrafia. Mas ainda não inventaram um mata-borrão para enxugar saudade, é certo.
Mas cheiro bom era o da minha mãe. Não usava colônia ou perfume. Apenas talco. Era gostoso deitar no seu colo e sentir o seu aroma; minha mãe tinha cheiro de criança... e uma santa mão para fazer geleia de mocotó e cuidar de plantas.
O cheiro das velas em novena, da feira-livre, tudo descobri ao seu lado, carregando sacolas de lona. Ela se foi e seus aromas ficaram entalhados em saudade que recolho nestas velhas palavras, como alguém a construir catedrais dentro de si. Mas quem se importa?
Bom dia.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico.

Escrito por: