Publicado 12/11/2020 - 06h49 - Atualizado 12/11/2020 - 06h49

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Tem coisa que dói e outras que não doem nada. Escrevo por escrever, entender uma dor que me afunda o baço. É nesse lugar que sinto a saudade latejar, diariamente, batendo por dentro das costelas e subindo pela espinhela. Mas as coisas não são como a gente deseja e a vida é sempre um balaio de sentimentos, uns bons, outros ruins. Coisas da vida.
Escrevo por escrever. É coisa de gastura que dá na gente, alfinetando e alinhavando uma colcha de desentendimento. A vontade é de sair correndo e entrar na Casa do Sol, onde todos os cachorros são amigos, deitar palavras de conversa besta no colo bom e farto além de belo, de Hilda Hist, visitar a sua cozinha de forno a lenha, e ouvir a sua prosa de pedra, e ossos, poesias que virão pelos próximos séculos.
Estou com saudade da moça Hilda, daqueles olhos azuis e faiscantes, brilhando certezas, incitando dúvidas, e assim escrevo por escrever... E saudade muita de um companheiro seu, Dante Cazarini, que, no natal de 1970, me levou para um passeio em Massa Guaçu. Descemos a rodovia Raposo de Tavares e, no meio do caminho, Dante ficou preocupado por não ter avisado a sua amada Hilda; e assim voltamos, Mário Lúcio Paixão, Jota Toledo, esse ensaudado escriba e Luiz Mazalli – que meses depois resolveu partir antes do combinado, e tanta saudade também tenho de ouvi-lo cantar, barítono de voz aveludada como era a sua companhia e amizade. Nunca conheci Massa Guaçu – nem mesmo quando um outro saudoso amigo, Duda Porto, me levou para a sua casa em Ubatuba, passando raspando pelas areias de Massa Guaçu. Ele conhecia a minha história sobre esse canto de praia mas não parou. Dizia ele que não seria a mesma coisa sem os meus amigos do também saudoso Armorial. E assim ficaram os olhos azuis de Hilda e o seu enorme sorriso quando ela abraçava o seu homem dentro das entranhas da minha retina.
Tento ligar para o Jota Toledo. Quero lhe contar que as paineiras da Orosimbo Maia estão dando frutos. Mas Jota também se foi. E mesmo sabendo que ninguém atenderá, ligo, e em a secretaria eletrônica atenderá. Diane também se foi. E descubro que a saudade me deixa menos bruto. E lembro do também saudoso Oswaldo Guilherme, poeta e compositor, que um dia escreveu que "a saudade é a última notícia que tenho de você". Na mosca!
Escrevo por escrever. Mas quem se importa?
O trabalho reside em si. E todo o santo dia é a mesma coisa. E o trabalho é toda a nossa atribulação de alma, do processo de querer compreender a vida. Ou o próprio trabalho. E tudo o que mais desejo é uma humanidade tranquila. Ou, pelo menos, feliz.
Nada existe para alimentar a alma senão o trabalho. Veja bem a noite adormecida do corpo. Houve um desejo de carne e nada aconteceu. Houve um desejar de prosa e nada se deu. E umk princípio de saudade se instaura e você rola na cama atrás de alguma coisa; e nada tenho senão a mesma solidão de tantos iguais.
Já não tenho mais o mesmo sonho dos muitos anos que vivi. Tenho agora uma vontade de encontrar quem seja natural e que assim se manifeste. Tenho em mim a procura da minha própria alma; e será que fui agraciado por uma? Pergunto e não tenho resposta.
Fará o que o homem que adormece sem paixão? E a mulher? E em todas as manhãs a humanidade compreendendo tudo, fará o quê?
Nada me faz acreditar senão na paixão. Quero acreditar no amigo que fala da mulher gripada, febre alta, e que nada fez para amenizar a pequena dor. E assim lembro que sou lavrador da minha própria vida, da única que sempre tive. O meu País vive em mim. Somos ambos donos de nossas terras e narizes. E a carniça da velha corrupção fede no ar. E assim cheira o meu assombro. E espero que o nosso presidente tenha o mesmo olfato. É isso.
Bom dia.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico.

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