Publicado 08/11/2020 - 04h21 - Atualizado 08/11/2020 - 04h22

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São coisas comuns e todas são importantes para a nossa vida. Os tempos estão estranhos e com eles vamos nos acostumando. Ou alinhavando nossos momentos existenciais, nossos acertos e erros, enfim, alinhavando a vida que temos. E busco a serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar. Assim é o mundo que os meus pais me apresentaram e assim vou seguindo as pedras portuguesas das calçadas da minha cidade; hoje sozinho de todos e apenas caminhando com uma máscara no rosto. Sem carnaval, sem confete e serpentinas; sem odaliscas e um bumbo de marcação. Apenas andar sozinho e alinhavando lembranças...
Meu avô, já septuagenário, construiu um forno de barro lá no quintal de casa. E nele torrava amendoim que vendia pelas ruas do Taquaral e Cambuí, além de cocadas e paçoquinhas. O dinheiro não daria para pagar escola particular para a penca de netos que ele tinha, mas muita linha para soltar maranhão e as balas que eu comprava vinham da mesada que ele me dava. A escola pública naquele tempo era tão boa que era comum um pai ameaçar o filho relaxado em escola particular, lugar mais que merecido para gente burra. Mas, na medida do possível, meu avô procurava ajudar os netos. Sempre foi e será meu herói. Não me assusto com as coisas da vida. A vida foi feita para ser vivida e venho fazendo isso sem melhorar ou piorar as coisas. Não tive muita conversa com meu pai. Nunca fomos amigos. Ele apenas era o meu pai e eu, o filho. Tudo muito simples como uma roda de carroça. Meu avô era avô. Tinha lá um carinho meio bronco, tabaréu, mas tinha carinho. Durante muito tempo ele aparecia lá em casa com uma senhora que a gente ouvia dos mais velhos tratar-se de uma "vó torta".
De algum modo aprendi a fazer carinho nas pessoas que gosto. Meu avô me ensinou a fazer isso. Com o meu pai aprendi a abraçar e jamais levantar a voz contra uma mulher. E a pedir licença para sair da mesa e verificar se todas as portas estavam trancadas e os filhos bem agasalhados.
Em algum momento achei que estava em condições de tomar conta do mundo e fui conhecer o meu País. Enrasquei-me com a ditadura militar lá veio o meu pai – e um tio – aliviar a minha barra. Ele era o pai e eu o filho. E ele cuidou de deixar isso bem claro.
Sempre quando chega o Dia dos Pais sempre o vejo abraçando a minha mãe pela cintura, na cozinha, beijando o pescoço dela – com os longos cabelos em coque e amarrados por um lenço branco. Ambos já partiram e a lembrança insiste em andar comigo pelas calçadas.
A primeira casa que eles montaram em Campinas foi recentemente derrubada e virou um prédio comercial de dois andares. A casa era um quase nada ajardinada com rosas e margaridas e tinha cadeiras na calçada, ao fim das tardes. E ao lado passava sempre uma Maria Fumaça apitando bem-aventurança, resfolegando e já bem cansada pela subida. Reclamar do quê, hein? Da pandemia, da solidão social? Ora, isso eu tiro de letra.
E a pandemia política segue atropelando o bom senso da Democracia. E vou pisando com muito cuidado as pedras portuguesas da calçada e atento nas esquinas. Ajeito-me como posso e sigo em frente, com serenidade para entender o que não posso modificar, a pressa de motoristas de carros e ônibus. E busco compreender que todos têm uma pressa idiota para chegar o mais rápido possível a um destino que não tem horário marcado para ser o que é: o destino.
Vou devagar pela calçada e paro no semáforo. E assim marco o tempo que tenho para não ser atropelado pela pressa de chegar em casa para colocar duas beterrabas para cozinhar. E aí é hora de paciência para aguardar o cozimento delas; e também as das palavras que nasceram e que colhi na horta das minhas calçadas.
Bom dia.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico.

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