Publicado 05/11/2020 - 06h51 - Atualizado 05/11/2020 - 06h51

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O jogo está sendo jogado há mais de duzentos mil anos, tempo estimado à existência dos homens no planeta. Descobrimos o fogo, inventamos a roda, a forja e os carros. Hoje, cerca de 40 mil pessoas morrem anualmente em acidentes de trânsito no Brasil. Com ou sem radar. E 60 mil morrem assassinadas. E as 160 mil pessoas mortas pela Covid-19, em menos de seis meses, dão conta do descaso do governo federal com as nossas duras perdas. Somando por baixo, 300 mil pessoas morreram e, se pensarmos em tempos decanos, milhões delas faleceram pela inépcia do governo. Dos jovens assassinados, entre 14 e 29 anos, um deles poderia ser um cientista que bem poderia descobrir a cura para alguma doença. É por isso que toda a vida importa. Não só a dos negros, mas de qualquer outro da mesma cor interior – alguns deles mortos por balas que acham seus corpos indefesos.
E o dia dos mortos deveria ser um dia de reflexão a respeito do valor da vida. E penso nas companheiras que tive, em um filho morto e nas dezenas de amigos que morreram antes das manhãs dos meus abraços, das minhas canções, bem antes de serenatas e prosas de esquinas e churrascos em porta de bar.
Não faço nada agora; senão reclamar ausências que jamais serão preenchidas. Estou atordoado e busco um poste existencial para me agarrar. Estou em mim - e fora do corpo penso nas asneiras políticas, nos bandidos políticos da cidade, covardes todos eles, pois roubam com uma simples caneta, sempre nas alcovas de suas casas e gabinetes.
A velhice sangra a todo momento. Ou deixa um hematoma no braço ou no dorso da mão. Com isso até que me resolvo. Mas o sangrar político do meu País não tem como estancar com um curativo. E ele sangra, sangra, e avermelha a bandeira nacional. E quem irá tirar a ferrugem sanguinolenta da Bandeira Nacional, hein?
E assim voltamos à era do supostamente correto. Empresários e políticos corruptos são "supostamente" acusados de desviar dinheiro público. E desviar dinheiro público, é claro, é coisa de ladrão que sangra o bolso dos cidadãos. E haja água oxigenada para limpar a sangria.
Estou assim em suposta calma política. Eles vão roubando supostamente os cofres da cidadania e vou levando as minhas certezas pelas ruas do quarteirão da minha casa, acenando, de longe, aos amigos, e bem sei que estamos todos envergonhados a cada notícia dos tais supostos ladrões políticos.
Não sou mais o que supostamente penso. E nem supostamente mereço respeito de quem seja, pois, é claro, também sou um suposto surrupiador do erário público. E a dúvida é direito de cada um. O fato é que estamos à mercê dos supostamente corretos homens públicos do País. Aqui não existe a figura do corrupto ativo, empresários e afins. Apenas supostamente temos o corrupto passivo, o que aceita suborno, o caixa dois, e que desvia uma parte para o partido e outra para a conta do laranja da quadrilha. Somos um País de laranjas podres, onde todos são supostamente honestos. Ou culpados sem culpa alguma, honestos que são entre si.
Envelhecida que está o dorso das minhas mãos estão frágeis – qualquer toque e a pele se rompe e anuncia que ainda tenho sangue a escorrer dentro de mim. E mancha o lençol da cama e o meu pijama. Pois é, ainda durmo de pijama. E vou lavar a mancha de sangue com a paciência da água oxigenada, sabão e escova. E lembro da sangueira dos corruptos do meu País. E vou seguindo a vida com a calma de sempre. Um dia, qualquer dia, o Brasil vai achar o rumo correto das urnas, esfregando na cara dos bandidos do País as sujeiras que eles buscam esconder debaixo dos carpetes de suas elegantes mansões. E assim, por enquanto, apenas vou lavando as manchas do sangue que escorre do dorso das minhas mãos – e bem devo dizer que elas estão física e moralmente limpas. E é apenas isso.
Bom dia.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico.

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