Publicado 05/11/2020 - 06h45 - Atualizado 05/11/2020 - 06h45

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No último final de semana tivemos o 1º Congresso Brasileiro de Pediatria virtual, on-line, um fato inédito e marcante para nós acostumados às palestras presenciais e interativas.
Mas valeu pelas novidades e Break News, uma delas foi tão interessante que vou comentar aqui com meus leitores, e o tema não poderia ter sido outro: a pandemia do Covid-19 e suas repercussões nas crianças.
Sabemos que os grupos de risco para esta doença são os idosos, portadores de algumas enfermidades específicas como as pulmonares, hipertensão, diabetes, entre outras doenças crônicas, com destaque para obesidade, um grande fator de risco; também estávamos cientes, que as crianças se incluíam nos grupos de baixo risco para Covid-19.E para achatar a curva de novos casos virou um mantra o passo a passo de ficar em casa, distanciamento social, lavar as mãos e evitar viagens.
E assim foi feito, entre tapas e beijos, politicagens a favor e contra, até que estamos conseguindo reduzir o número de casos e de mortes, mas um destaque deve ser dado, de todas faixas etárias os que mais cumpriram a meta de "ficar em casa" foram as crianças.
Pai e/ou mãe voltaram ao mundo exterior, segundo as mudanças nas cores das faixas vermelhas, amarelas e verdes, avós voltaram a receber sua aposentaria no banco, ir à igreja, passear no shopping; adolescentes sorrateiramente se agruparam, mas as criancinhas ficaram em casa, sem passeio, sem escola, sem parquinhos e demais, justamente aquelas do menor grupo de risco.
Mas ficar em casa, sem brincar, correr, pular, aulas de educação física, futebol, balé, natação tudo isso levou nossas crianças para um estado de sedentarismo crônico, fator de risco para obesidade.
Em casa, aumentou o tempo de tela, parte na aula on-line, parte nos joguinhos eletrônicos e outra parcela assistindo TV, eventos que invariavelmente são acompanhados por suco de frutas (contém água e açúcar), refrigerantes, salgadinhos, bolachinhas e outros quitutes, e tome mais fatores de risco para a obesidade infantil.
Dentro de casa não entra Sol e a falta da exposição solar reduz os níveis de vitamina D, um fator de proteção para Covid-19.
Sem hora para acordar, com tempo para um soninho depois do almoço, tivemos um total descontrole no ciclo biológico do sono/vigília, crianças dormindo depois da meia noite e acordando quase meio dia, fatores de risco para gerar estresse e distúrbios hormonais que aumentam o risco para obesidade.
Os pais, em parte, se sentem culpados pela prisão domiciliar das crianças e ficaram mais permissivos com a dieta, com o tempo de tela e com as recompensas, como exemplos: é só um sorvetinho coitadinho, ou é só um chocolatinho né? Entre outras ativações dos centros primitivos da recompensa.
E começam a chegar os pedidos pelo delivery, em sua maioria comidas prontas, processadas ou ultraprocessadas, os lanches da escola passaram a ser lanches em casa, com o que tinha de mais prático e rápido, e sabemos que não são muito saudáveis, e com isso aumenta o risco para obesidade.
E as situações de estresse, não faltaram notícias bombásticas por todo lado, perdas e lutos familiares, crise econômica, desemprego, brigas familiares, a convivência intrafamiliar prolongada gera atritos e as crianças sofrem quando vem seus pais estressados, nervosos, inquietos, gritando e brigando.
Estresse gera ansiedade, compulsão e come-se mais, aumentando o risco para obesidade.
E aí vem a Break News do último Congresso de Pediatria, um aumento de mais de 50% dos casos de sobrepeso e obesidade em crianças, sim aquelas mesmas que estavam no grupo de baixo risco para Covid-19.
Nem chegamos ao final da pandemia e nossas crianças agora obesas, hipertensas, pré-diabéticas e estressadas acabam de entrar no grupo de alto risco para doença.
O que fizemos e o que estamos fazendo com nossas crianças?
Está é a reflexão que deixo para meus leitores, toda ação gera reação, e agora, o que fazer?
Tadeu Fernando Fernandes, médico pediatra, é presidente da regional Campinas da Sociedade Brasileira de Pediatria

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