Publicado 21/11/2020 - 11h13 - Atualizado // - h

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O ano é de 524. O prisioneiro é diariamente submetido a torturas. Que, se no início buscavam alguma confissão de culpa, se converteram num ritual. Os algozes talvez já estejam envolvidos em tédio; mas para o torturado permanece uma contínua experiência de dor. Para fugir da qual procura se concentrar em continuar redigindo, mentalmente, o livro que escreve em sua cela Cem anos se haviam passado desde a queda de Roma, e a Península Itálica segue regida pelos bárbaros, chefiados pelo Imperador godo, Teodorico, que fez construir sua sede em Ravenna. Inculto embora, e adepto da religião ariana, o Imperador tolera que cristãos e judeus permaneçam fieis a suas crenças e que instituições como o Papado e o Senado continuem funcionando (seu maior temor localiza-se mais a leste, em Constantinopla, sede oriental do que restou do Império Romano, e que ambiciona reconquistar os territórios ocidentais perdidos para os bárbaros). Chega até mesmo a convocar patrícios romanos para que venham integrar sua administração. Um deles é o descendente de nobre família senatorial, Anício Mânlio Severino Boécio, cultor dos legados literários e filosóficos gregos e latinos e possuidor de uma vasta biblioteca.

Boécio integra o corpo administrativo de Teodorico a partir de 522. Dois anos depois, porém, cai em desgraça, sob a suspeita de conspirar a favor de Constantinopla: é preso e condenado à morte. Enquanto aguarda a execução, e em meio a incessantes torturas, consegue com que à sua cela chegue material de escrita e põe-se a redigir obsessivamente, como uma forma de fuga ou, mais exatamente, de consolo. Embora convertido, vai buscar apoio não na doutrina cristã, mas na filosofia. E, sem ter acesso aos seus caros livros, confia, sempre que se reporta aos textos antigos, na própria memória: afinal, suas leituras e aprendizado passavam por memorizar longos trechos do material lido e estudado.

Boécio é executado naquele mesmo ano de 524, deixando como legado esse monumento literário e filosófico, além de testemunho de protesto contra o arbítrio e a tirania, intitulado A consolação da filosofia.
Mil e duzentos anos depois, outro prisioneiro, também condenado à morte, escreve poemas no interior do calabouço. O ano é de 1794, o local é a França, o período é o do Terror da Revolução Francesa; o prisioneiro chama-se André Chénier (1762-1794).

Igualmente culto, proveniente de uma família abastada, Chénier, no clima de efervescência política então vigente, participa ativamente dos eventos públicos. Espírito livre, amigo da lei e da ordem, proclama sua repulsa aos radicalismos de quaisquer matizes e critica igualmente girondinos e jacobinos: não surpreende, portanto, que, a despeito dessa postura independente (ou exatamente por sua causa), venha a ser preso em 07/03/1794, sob a acusação de "conduta impatriótica".

Na prisão, consegue acesso a papel e caneta e redige uma série de poemas, representativos de um candente libelo contra a opressão, a mentira e a perversidade. E clama, em suas Élégies: "Aujourd'hui qu'au tombeau je suis prêt à descendre, / Mes amis, dans vos mains je dépose ma cendre" (Hoje que ao túmulo estou prestes a descer, meus amigos, em vossas mãos deposito minhas cinzas). Ou, em seus Iambes: "Comme um dernier rayon, comme un dernier zéphyre / Anime la fin d'un beau jour, / Au pied de l'échafaud j'essaye encor ma lyre". (Como um último clarão, como um último zéfiro animando o fim de um belo dia, ao pé do cadafalso eu ensaio a minha lira). Louva, por fim, a Virtude, a quem assim exorta: "Toi, Vertu, pleure si je meurs" (Tu, Virtude, chora se eu morro).
Chénier foi guilhotinado em 25/07/1794. A geração romântica posterior (Musset, Lamartine, Victor Hugo) o reverenciou. Seu drama foi transformado numa ópera muito apreciada, Andrea Chénier, composta pelo italiano Umberto Giordano.
Luiz Carlos Borges é membro da Academia Campinense de Letras

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