Publicado 27/11/2020 - 10h39 - Atualizado 27/11/2020 - 10h39

Por


No réveillon vai fazer um ano que não o vejo. Tenho com ele uma ligação tão visceral que não sei como é possível esse fato.
Estou falando do mar, e a ligação que citei vem de há muito. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que o vi. Tinha lá meus 8 ou 9 anos e fui com minha família a um passeio em Santos. O dia, horroroso. Chuviscava e ventava frio. Vestindo um paletó de couro, meu grande orgulho na época, presente de meu tio Clésio, fui até a praia sentir a areia e olhar o mar de perto.
O fascínio foi imenso! Nem as pernas à mostra pelas calças curtas, quase enregeladas, foram capazes de quebrar o encanto daquele momento!
Ficamos amigos, eu e o mar! Não sei quantas horas de minha vida passei olhando para ele... Admirando sua imensidão, pasmo com sua beleza, um tanto constrangido por ele, tão meu amigo, não revelar todos os seus segredos. E como tem segredos, o mar! Nas profundezas, na superfície, na sua orla, seja perto ou nos confins do mundo...
Quando era criança, olhava o mar e vinham-me à mente galeões espanhóis carregados de dobrões de ouro que iam a pique pela ação de piratas de muita maldade e pouca inteligência.
De olhos fechados assistia embates terríveis em noites tenebrosas. O ruído ensurdecedor dos canhões, misturando-se ao tinir de espadas e aos gritos dos feridos de morte de ambos os lados. Muitas vezes a pilhagem nem chegava a ser feita, pois as naus iam ao fundo mercê da destruição pelas peças de artilharia.
Quando, imóvel, olhava o mar, sentia-me como Jack London, ou Robinson Crusoé, sonhando no cais aventuras em mundos distantes...
Apesar de toda a paixão, de todo o fascínio, jamais entrei num navio! Estou dizendo navio de verdade, desses imensos, de cruzeiro. As poucas vezes em que me fiz ao mar, foi para trajetos pequenos, em barcos pequenos. Do porto de Nápoles à Ilha de Capri, de Manhatan à Staten Island e as domésticas, do Rio a Paquetá, de Cananéia à Ilha do Cardoso, de Ubatuba à Ilha Anchieta. Muito pouco para alguém que sempre se sentiu um tanto quanto proprietário dos oceanos.
Falei em cruzeiros e certa vez tive a oportunidade de fazer um. Meu saudoso amigo Vanderlei Corsi, na época dono da Vander Turismo, me deu de presente duas passagens num cruzeiro para Buenos Aires. Naquele tempo, fazer um cruzeiro era algo difícil, caro.
Felicíssimo, tratei de convencer Violeta que sempre teve aversão a embarcações. Depois de muito trabalho consegui convencê-la. Iríamos fazer um cruzeiro!!! Era a suprema glória!!!
O imponderável, entretanto, deu a última palavra... No dia 31 de dezembro, aquele era o ano de 1988, na Baia de Guanabara, o barco de turismo Bateau Mouche, naufragou com 142 pessoas a bordo e delas 55 morreram, inclusive a atriz Yara Amaral...
Como fazer um cruzeiro logo em seguida? E como levar Violeta? Agradeci muitíssimo ao meu amigo Vanderlei e a vida seguiu.
Uma outra ocasião, pretendia, com toda a família, fazer um cruzeiro pela Europa. Sairia de Gênova, como Colombo, atracaria em vários países, inclusive o Marrocos, finalizando em Marselha.
Outra vez entra em ação o imponderável. Um surto de ebola fugiu dos limites da África e invadiu a Europa! Como colocar toda a família confinada durante 20 dias? A vida mais uma vez seguiu.
Devo dizer que, sobre a água, minhas experiências se limitam a um passeio pelo Rio Sena, outro pelo Reno, outro pelo Amstel, em Amsterdã, e um último no Lago Lucerna, na Suíça. Mar mesmo, que é bom, nada...
Claro que você, meu leitor, pode perfeitamente dizer que estou chorando de barriga cheia e sou obrigado a concordar. Acontece que você não sabe o que significa entregar os pontos antes do fim do campeonato. Não vejo a menor possibilidade de, nesta altura, me aventurar por qualquer um dos 7 mares.
Sou, entretanto, um privilegiado. Os meandros da vida caminharam de tal forma que, hoje, tenho, praticamente à disposição, um belo local no Guarujá, onde, do alto, posso observar meu velho amigo, verificar suas mudanças de cor e de humor, saber quem ele transporta, de onde e para onde.
O mar pode ser terno e bruto, doce e feroz, sublime e impiedoso. Não há uma maneira exata para definir o mar. Ele é simplesmente o mar...
EM TEMPO: em janeiro de 1998 estive com Maradona, quando de sua vinda a Campinas para inauguração do Careca Sport Center. Tive o privilégio de vê-lo jogar nesse dia ao lado de Rivelino, seu ídolo de vida inteira. Tive o privilégio ainda maior de testemunhar um gesto extraordinário de Dom Diego. Ao saber que um importante hospital de Campinas estava carente de recursos, fez a ele uma vultuosa doação. A única condição é que fosse mantido o anonimato. “EL Diez” era assim... Descanse em paz. A paz que você tanto merece, Diego...
José Roberto Martins é professor, jornalista e membro da Academia Campinense de Letras (ACL).

Escrito por: