Publicado 20/11/2020 - 07h19 - Atualizado 20/11/2020 - 07h19

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Preso em casa, em função da pandemia que a todos atinge e em função do tratamento que a mim atinge, resolvi fazer um balanço das minhas saudades. Saudades das coisas que estaria fazendo hoje em dia, mas, não estou, saudades de pessoas, de lugares, de situações.
Tenho muita saudade dos passeios nos fins de semana na Feira de Antiguidades, a velha "Feira Hippie" ... Tenho saudade específica da banca do meu amigo Roberto Lima das Neves, responsável por várias peças do meu acervo de colecionador.
Nítida na memória está a primeira vez em que lá estive... Encantei-me com um suporte inglês de cachimbos com 6 cachimbos e o correspondente descanso. Como tinha saído para caminhar e não para comprar, no bolso, muito perto de nada.
Pedi ao Roberto que guardasse, que depois ou na outra semana iria buscar. O moço, que jamais havia me visto, nem a mim nem Violeta, disse: - pode levar, depois você paga ou deposita na minha conta. Pasmo com tamanha prova de confiança, perguntei como era possível aquilo. E diz o Roberto: - eu conheço as pessoas. Ponho minha mão no fogo! O resultado é que ficamos amigos.
Lá, tenho também saudade da banca do Alejandro, o Chileno, que sempre trabalhou com artigos militares. Com ele adquiri peças muito importantes. Há também o velho Barão, cujo estabelecimento tem uma variedade enorme de itens e muitos deles foram habitar minha casa.
Outro lugar que ocupa minhas lembranças é o Mercado Municipal, o antigo Mercadão. Embora ativo como nunca, o recinto rescende a passado. Lá meu pai trabalhou quando tinha 11 anos e o que mais encanta é a mistura de odores.
Já estive em muitos mercados pelo mundo. Roma, Chicago, Cleveland, Boston, Buenos Aires, Lisboa e muitos outros. Cada um tem sua característica, seus odores. Em nenhum, porém, encontrei a gama que encontro no Mercadão. Nem no fantástico Mercado de São Paulo, na baixada do Glicério.
O Box dos temperos deveria se sobrepor a todos os demais, mas, não é assim. Porque há os queijos, os salames, os pertences para feijoada, as pimentas, e como tem pimenta no Mercadão! O fumo de corda, os cereais a granel, os açougues, as peixarias externas que enviam seu odor para o interior e outros cheiros que me escapam à memória, mas, que contribuem para o resultado final!
No entorno, todo tipo de verduras, legumes e flores. Lá é possível se achar os itens mais insólitos. Quando o visitante vai se aproximando da parte central do velho prédio, um cheiro delicioso sobe às narinas, despertando os mais vorazes apetites, é a banca do pastel! Dia desses, numa postagem para minha amiga Ellis, escrevi que, para mim, talvez o pastel seja a maior invenção da humanidade!
Como, então, não ter saudade de caminhar por aqueles corredores, sentindo um cheiro de cada vez e todos ao mesmo tempo? Como não se arrepiar ao passar em frente ao saudoso bar, do saudoso Pachola? Reduto de gente simples, de artistas, de intelectuais e políticos, o velho bar marcou época, que o diga meu amigo Zaiman de Brito Franco!
No Mercadão se vende de tudo! Facas de todos os tipos, canivetes, ferramentas, brinquedos, galinhas vivas, coelhos, peixinhos, que tanto encantaram meu filho, chapéus... Como diria mestre Lobato, no Mercadão não há o que não haja!
Adoro andar por lá com Violeta. Devagar, olhando tudo com atenção, porque ali, não importa ter ido mil vezes, sempre alguma coisa nova vai ser descoberta!
À vezes, aos sábados, um grupo se reúne no lado externo e um samba corre solto, regado a cerveja estupidamente gelada! É quando me sento tranquilo e agradeço a Deus por estar vivo!
No início desta crônica, falei da intenção de fazer um balanço de minhas saudades geradas pelo distanciamento, mas, percebi que é impossível. Precisaria de muitos espaços como este, pois, só o Mercadão quase tomou conta dele, mesmo havendo ainda muito a dizer...
Como diz o título, tenho saudade de tudo! Das viagens, das caminhadas, das festas, do chope gelado na mesa de um bar, de abraçar forte cada amigo...
Escrever, no entanto é uma grande alternativa. Hoje senti cada cheiro do Mercadão, senti o sabor do pastel e me encantei com tudo aquilo...
Ah, saudade... Qualquer dia mato você.
José Roberto Martins é professor, jornalista e membro da Academia Campinense de Letras (ACL).

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