Publicado 13/11/2020 - 07h39 - Atualizado 13/11/2020 - 07h39

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Dia desses, estava deitado repousando no meu sofá favorito, quando tive uma ideia para esta crônica. Vale dizer que em função do tratamento para o mal que me acometeu, o que mais faço na vida é repousar! Repouso deitado, sentado, repouso andando, dirigindo, tudo muito devagar e com critério! Embora repouse muito, não é sempre que vem à mente uma boa ideia. Desta vez, entretanto, a tal valeu a pena!
Deitado, olhando para o nada, de repente, surgiu na minha frente o rosto sorridente de Ariano Suassuna. Ora, sou fã incondicional de Mestre Ariano e ao resolver escrever sobre ele uma grande alegria me invadiu!
O escritor, poeta, dramaturgo, era um homem alegre! Fazia de suas desilusões e decepções com o gênero humano, uma grande brincadeira.
Defensor empedernido do Brasil e das coisas brasileiras, Ariano contou através da vida, com a graça que lhe era peculiar, uma infinidade de causos em que sempre arranja um jeito de fazer a balança pender para o nosso lado.
Não perdoava, entretanto, o americanismo que certas pessoas insistem em demonstrar. Disse ele, certa feita, que numa recepção oferecida por um ilustre casal, a anfitriã em dado momento lhe pergunta:- o senhor, com certeza, já foi à Disney? Responde o mestre: não fui, não senhora! Mas, torna ela:- como é possível alguém que já foi tantas vezes aos Estados Unidos, não ter ido à Disney? - Minha senhora, eu nunca fui aos Estados Unidos. A essa altura a nobre criatura afastou-se de Ariano como quem diz:- se nunca foi à Disney e nem aos Estados Unidos, não merece a minha atenção! O escritor chegou à seguinte conclusão:- a criatura divide a humanidade em duas: os que foram e os que não foram à Disney.
Em outra ocasião, um escritor sabedor que Ariano estava terminando a obra "O Auto da Compadecida", fez a ele uma serie de perguntas. O seu livro se passa no nordeste? - Sim, diz o dramaturgo. Tem seca? - Tem. Tem cangaceiro? tem. - Então não vai pegar! Tudo isso tem demais! Já escreveram muito sobre isso! Saturou! Outra coisa: como se chama o protagonista da história? Chicó, diz Ariano. E o "sabe tudo" insiste: e como é que você vai traduzir pra outro idioma um nome como esse? Faça como eu! Ponho no meu personagem um nome como Martim. Se for traduzido para o Francês vira Martan, se for para o inglês fica Mártin e pro espanhol nem muda a pronúncia! Encerrando o caso, diz Ariano:- e vocês acreditam que com toda essa estratégia nenhum livro dele foi traduzido?
O mestre não perdoava! Com sua voz rouca e fraca ia esculhambando quem merecia esculhambo e enaltecendo quem fazia jus.
Certa vez foi assistir ao show de um humorista. Ficou revoltado! O cabra desfiou um rosário de palavrões do início ao fim! E diz o mestre: - Não consegui dar uma risada! E nem um palavrão novo aprendi! Aliás, sei muito mais do que ele, pois ele como criatura urbana que é, só sabe os da cidade e eu, sei os da cidade e os do interior do nordeste!
Esse era Ariano Suassuna, que tinha horror a telefone celular e que só aceitava o telefone convencional se fosse atendido da forma tradicional:- Alô? De onde falam? E assim por diante!
Além de tudo, era um professor extraordinário! Mesmo quando não estava dando aula! Cada entrevista sua ERA uma aula! As palestras, então, eram de uma incrível capacidade de prender o ouvinte e de deixá-lo triste quando chegavam ao fim.
Quando penso em Ariano Suassuna, fico imensamente grato por termos a internet! É tão simples entrar no youtube e ouvir suas entrevistas e palestras!
Era um homem único, um ser humano excepcional! A Paraíba se orgulha, com toda a razão, de ter um filho tão ilustre e tão completo!
Bendito o repouso que me foi imposto, por me permitir lembrar com clareza os ensinamentos do velho Mestre!
Salve Ariano!!!
José Roberto Martins é professor, jornalista e membro da Academia Campinense de Letras (ACL).

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