Publicado 28/11/2020 - 09h59 - Atualizado 28/11/2020 - 09h59

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Nos idos finais do século XIX, Campinas já estava contando com o surgimento e atuação das mulheres nos seus meios literários. Desde o ano de 1886, Julia Lopes de Almeida, então residente em nossa cidade, iniciara a sua fulgurante carreira, escrevendo crônicas maravilhosas, tanto pelo conteúdo quanto pela forma, publicadas nos jornais locais. Depois, seu talento literário desabrochou com ímpeto no Rio de Janeiro, firmando-se ela como uma das consagradas escritoras brasileiras.
O Diário de Campinas, de vez em quando, abria espaço para as mulheres campineiras expressarem seus dons e suas verves literárias.
A título ilustrativo, distintos leitores e leitoras do Correio Popular, vamos ler uma crônica da jovem e talentosa estudante Rute Fonseca, aluna interna do Colégio Josefina Sarmento, estampada naquele Diário, na edição de 20 de agosto de 1891, sob o título:
“INOCÊNCIA
É de tarde. O sol já quase oculto além das erguidas serras, esparge ainda seus tênues raios, que beijam docemente o cimo das frondosas árvores, como que se despedindo delas.
Os pássaros há muito se hão recolhido aos confortáveis ninhos; só um ou outro retardatário esvoaçava, soltando plangentes pios.
Uma aragem tépida faz ondular as esbeltas palmeiras; ou as verdejantes laranjeiras perfumavam o ambiente, com as deliciosas fragrâncias alvíssimas que as revestem.
Sobre o revolto e aveludado tapete que cobre as vastas campinas, um límpido regato corre de mansinho sobre pedrinhas multicores, deixando ouvir um suave murmúrio que nos traz a ideia do canto maravilhoso dos pássaros.
Para completar a risonha paisagem, uma criança de dois anos apenas colhe, aqui e ali, as variadas e perfumadas florezinhas que enfeitam o verdejante prado.
Seus cabelos de ouro esvoaçam ao sabor do vento e vêm, por vezes, beijar-lhe as faces rosadas pelo cansaço e, na sua mãozinha esquerda, ele segura um ramo de flores.
Além, no meio das laranjeiras, avista-se uma casinha de modesta aparência e um atalho estreito e aberto nos conduz à porta, apenas cerrada.
Entremos… Que contraste!... Que triste aspecto se desenrola a nossos olhos encantados pela aprazível paisagem que acabamos de admirar!... No fundo da sala em que entramos, vê-se estendido num pobre, mas asseado leito, um homem, moço ainda, porém em cuja fronte tem já estampado o dedo gelado desse anjo destruidor, que, de um só golpe, aniquila tudo e não escolhe a vítima – a morte!
De joelhos diante do leito, uma moça ampara com as mãos emagrecidas a cabeça do moribundo e contempla com os olhos súplices uma imagem da Virgem Maria suspensa a um canto do quarto, como lhe implorando intercessão junto ao trono de Deus.
O doente, já nos últimos estertores, crava os olhos no rosto da amada esposa e, fazendo um esforço supremo, deixa escapar uma palavra imperceptível – Alcides. A jovem compreende: seu marido quer o filhinho…, mas como chamá-lo!?…
A criança imprevidente afastara-se e colhia flores longe...muito longe…!
Passaram-se horas... Um derradeiro gemido, um gesto compulsivo, um olhar suplicante, e a alma, o espírito desprende-se do invólucro humano.
A infeliz viúva, com os cabelos em desalinho, as faces lívidas, continua de joelhos, banhando com ardentes lágrimas a fronte marmórea, como se pudesse chamá-lo outra vez à vida.
Pela janela entreaberta, um raio prateado da lua vem refletir-se docemente na imagem de Nossa Senhora, que parece contemplar com amargura o quadro desolador
Um ruído se faz ouvir na porta: é Alcides, que entra com as mãozinhas carregadas de flores. Com passinhos ligeiros, chega-se ao leito do pai e balbucia alegre:
Olá maman, que foles bonitas! São pala o papá! E, colocando-as sobre o corpo do morto, continua ainda:
- Maman, po que chola e po que papá dome tanto e tá tão frio?
Ouvindo a ingênua voz do pequeno, que mutila as sílabas e a gramática, a infeliz mãe levanta-se e aperta aos braços o gentil anjinho, única herança que lhe deixara o esposo ao baixar à campa… Banha com as suas lágrimas o rostinho angélico do filho, mas fica muda às perguntas feitas…
Como explicar à inocente criança que seu pai é morto...? Como fazer entrar naquela cabecinha infantil – o que é a Morte!!?”
Desse modo, distintos leitores e leitoras do Correio Popular, iam despontando o talento e a sensibilidade literária das mulheres, rompendo fortemente o então preconceito, o estigma equivocado contra a capacidade das mulheres de igualar-se e, muitas vezes, superar os homens!
Jorge Alves de Lima é historiador, escritor e presidente da Academia Campinense de Letras.

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