Publicado 14/11/2020 - 07h42 - Atualizado 14/11/2020 - 17h41

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Nas minhas crônicas anteriores, distintos leitores e leitoras do Correio Popular, eu lhes havia contado que Campinas, nos anos 50 e 60 do século passado, era uma cidade pacata e tranquila.
Todavia, nos meses finais de 1961 e durante todo o ano de 1962, esse cenário calmo, sereno e sossegado começou a alterar-se. Campinas transformou-se, transpirando uma sensação de medo, de tensão e insegurança, que impregnava a mente dos moradores que, até então, viviam sem quaisquer sobressaltos e inquietações. A razão principal da mudança repentina desse estado das coisas foi o surgimento de um assassino e estuprador, cruel e sanguinário, que agia na calada da noite, em lugares ermos e desertos, principalmente no Jardim das Paineiras, Nova Campinas e até no populoso bairro dos Campos Elísios.
O violento marginal vestia um capuz preto e, armado de um revólver e uma lanterna para iluminar a cena do crime, atacava impiedosamente.
Naquela época, não havia motéis e nem lugares seguros onde os casais e amantes pudessem namorar à vontade. Daí a escolha deles pelos lugares escuros das ruas desertas e dos terrenos baldios, onde estacionavam os automóveis e usavam os bancos dos automóveis como leitos de amor.
Em situações como essas é que, repentinamente, surgia o Bandido Mascarado, focando a lanterna nos corpos nus dos namorados, mirando o revólver nos homens e atirando neles para matá-los. Em seguida, violentava as mulheres, estuprando-as com requintes de perversidade.
Agindo dessa maneira, o assassino atacou mais de doze casais cujos nomes deixo de citar por razão de respeito aos seus descendentes que ainda vivem em nossa cidade.
O policial Joaquim Campos Nogueira, noite e dia, procurava desvendar a identidade do misterioso bandido, chegando mesmo a suspeitar do farmacêutico Fábio Garcia Miranda, embora nunca tenha conseguido incriminá-lo. Até hoje, os crimes permanecem insolúveis, sem autoria conhecida.
Tudo isso levou Campinas ao pânico total, e esse clima tenso predominava em todos os ambientes e lugares!
Nesse tempo, eu estava cursando Direito na então Universidade Católica de Campinas e residia numa república de estudantes com meus amigos para sempre: o Bentão Pereira, o João Antônio Nocite e o Celso Augusto Bueno Sanseverino, este último já falecido. Nossa residência localizava-se na rua Barreto Leme, em frente ao portão lateral do prédio do Colégio Sagrado Coração de Jesus, bem pertinho do famoso Bar do Meio, no largo do Mercado Municipal.
Junto com meus colegas, eu estava completamente atemorizado e impressionado com o tal Bandido Mascarado.
Lembro-me bem de uma vez em que, após estudar a tarde toda, resolvi assistir, na segunda sessão da noite do inesquecível Cine Ouro Verde, ao filme Psicose, do consagrado diretor Alfred Hitchcock, o maior mestre de fitas de suspense e terror.
O cinema estava completamente lotado! O filme, o maior clássico no gênero, foi estrelado por Anthony Perkins e Janet Leigh. Começou com cenas calmas e tranquilas, até quando a protagonista se hospedou num motel de beira de estrada. Ao banhar-se debaixo do chuveiro, as águas escorrendo pelo seu corpo todo, ela foi esfaqueada e morta pelo personagem psicótico vivido por Anthony Perkins. A cena chocante e terrível, de extrema violência, levou os espectadores, de modo uníssono, a gritar aterrorizados e assustados: OH! OH! OH! …
Eu sofri tamanho impacto, que cheguei a pular da poltrona, quase caindo de costas!
Terminado o filme, deixei o Cine Ouro Verde, para retornar a casa. Era quase meia-noite. Passei ligeiro pela rua Barão de Jaguara deserta, atravessei o largo do Rosário e entrei pela avenida Francisco Glicério. O espaço da rua Barreto Leme estava sem viva alma, quase às escuras, e a proximidade com o temido e violento Largo do Mercado Municipal me causava arrepios. Suando frio e com medo, minha imaginação subia aos céus, fazendo-me ver, como se fosse uma miragem, a figura do Bandido Mascarado atacando-me com uma faca enorme, reprisando a cena do filme Psicose. Minhas pernas somente pararam de tremer e minha respiração voltou ao normal, quando acendi as luzes da sala da minha moradia.
Foi aí que compreendi ter revivido, na vida real, o drama de Hitchcock, ampliado pela lupa da minha aterrorizada fantasia.
Jorge Alves de Lima, historiador e escritor, é presidente da Academia Campinense de Letras

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