Publicado 24/11/2020 - 07h34 - Atualizado 24/11/2020 - 07h34

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Os últimos meses têm sido tempos difíceis na vida de muitas pessoas. Iniciamos o ano com uma pandemia que amedrontou o mundo, ceifou muitas vidas e agora nos deixa cheios de incertezas em meio a uma crise econômica também de proporções mundiais. Diante desse cenário, talvez muitos de nós estejamos nos perguntando: por quê? Haverá um motivo e um sentido para tudo isso?
Indagações como essa não comportam respostas simples. Mas, se quisermos ir a fundo nessa questão, é necessário refletir sobre como encaramos a morte. É que, por mais paradoxal que pareça, disso depende muito diretamente o sentido e o rumo que damos à nossa vida.
Com efeito, se encaramos essa nossa existência apenas sob a perspectiva dessa curta passagem terrena, como algo que se iniciou no nosso nascimento e que se acabará por completo com a morte, veremos a nós mesmos como um pequeno desenrolar de uma existência sem sentido. Com efeito, se a vida é um simples desenrolar de fatos entre a escuridão do “antes” e o vazio total de um “depois”, muitos acontecimentos ficarão sem uma razão que, em última análise, nos traga a paz.
Segundo essa concepção, acontecimentos como a pandemia, ou mesmo uma doença pessoal ou em alguém a quem amamos, suspendem o curso da nossa existência. Com efeito, quando vem o sofrimento tudo o que resta é esperar que cesse para, enfim, voltar a “viver”. São essas pessoas que agora não vivem, vegetam a espera de uma vacina que a permitirá voltar à “vida normal”...
Mas há aqueles que conseguem enxergar além da morte. De uma forma ou de outra, olham para si e encontram no mais íntimo do seu ser um anseio de felicidade e de eternidade. E, a partir dessa constatação evidente – afinal quem não quer ser feliz e que isso seja para sempre? – concluem que quem nos criou com tais e tão profundos anseios os pode satisfazer. De fato, um olhar sereno e atento para nós mesmos, para os nossas aspirações mais profundas, permite-nos concluir que essa vida não se esgota aqui, ao contrário, é destinada a uma plenitude precisamente no convívio com Aquele que a criou com tais anelos de eternidade.
Os que vivem assim também sofrem com a pandemia, com a perda de entes queridos ou com doenças que vêm a padecer. Mas sabem que não se deixa de viver porque sofrem. Aliás, basta um pouco de maturidade para perceber que, aqui, felicidade e dor caminharão juntas. Nesta vida, seremos “infelizes e felizes, misturadamente”, parafraseando o grande Guimarães Rosa.
Neste ano ouvimos frases e desabafos muito pessimistas: “que este ano termine logo”; “2020 um ano para ser esquecido” etc... Será? Não será um ano repleto de oportunidades para revermos os nossos conceitos, as nossas opções de vida e, principalmente, para nos examinarmos com coragem sobre em que estamos colocando a nossa esperança de felicidade?
A morte é certa. E a maneira como encaramos essa certeza marca a nossa vida. Paradoxo? Talvez. Mas é certo que quando sabemos que estamos de passagem, isso marca o modo de caminhar. Apressamo-nos, pois, para construir algo que não termina aqui. No entanto, por paradoxal que pareça, quanto mais caminhamos sabendo que a vida não acaba aqui, somos muito mais felizes... também aqui.
Fábio Henrique Prado de Toledo, moderador em cursos de orientação familiar do Instituto Brasileiro da Família – IBF e especialista em Matrimônio e Educação Familiar pela Universitat Internacional de Catalunya – UIC, é Juiz de Direito em Campinas - e-mail: fabiohptoledo@gmail.com

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