Publicado 28/11/2020 - 10h07 - Atualizado 28/11/2020 - 10h07

Por


Quando relembro meus tempos de estudante de História, alguns nomes logo me ocorrem à memória, porque jamais saíram de meu convívio. Dentre eles, nenhum se me fixou com tanta nitidez, admiração e exemplo como o professor Nelson Omegna (1903-1988). Natural de Niterói (RJ), dotado de grande bondade, paciência e enorme cultura humanística, sempre se preocupou em educar e formar jovens.
Estabelecendo-se em Campinas, ingressou como redator-chefe do Correio Popular, foi vereador de nossa Câmara Municipal e galgou altos postos na esfera federal como deputado e Ministro do Trabalho. Sua grande paixão era lecionar, era mais professor do que qualquer outra atividade, pois dava aulas de História e Sociologia em diversos colégios de Campinas, especialmente na antiga Escola Normal(hoje Instituto de Educação Carlos Gomes). Lembro-me bem quando o conheci no Centro de Ciências, Letras e Artes de nossa cidade (foi seu presidente) e através de nossas conversas, pude aquilatar sua imensa cultura, propondo problemas e teses e me induzindo a procurar soluções em diversos campos do conhecimento.
Exímio contador de casos, todos ficavam arrebatados em ouvi-lo, como aquele em que o general Lott perseguiu e matou um ladrão que atormentava seu bairro no Rio de Janeiro. Era tão preocupado com a situação econômica das classes trabalhadoras que, como ministro, muito lutou pela melhoria delas. Autor de vários livros, que comentaremos mais tarde, era dotado de forte espírito liberal e adversário da política totalitária de Getúlio Vargas. Conta-se que, ao escrever um artigo virulento contra aquela autoridade, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) imediatamente reagiu contra ele: ou seria dispensado da chefia da redação ou o governo suspenderia a cota de papel destinada à sua impressão diária. Não lhe restou outra alternativa a não ser pedir demissão, em 1945.
Nesse mesmo ano, a 22 de janeiro, foi convidado a participar do Primeiro Congresso de Escritores, realizado em São Paulo, nas dependências do Teatro Municipal. A Segunda Guerra Mundial estava chegando ao fim, o que iria influir no panorama interno do Brasil. Tinha um amor incrível pelo trabalho e em qualquer ramo dava muito de si. Certa vez perguntaram ao maestro Villa-Lobos que fazia para compor tão bem, e ele respondeu, com sua simplicidade de gênio: "quanto mais eu trabalho, mais me aprimoro". O mesmo podemos dizer de Omegna.
Dono de um estilo límpido, agradável e conciso, logo se enveredaria pela Literatura e História. Dedicava-se à literatura com carinho especial, e dentre seus livros, destacamos "Espinhos, Flores e Frutos", publicado em 1937, enaltecendo a figura ímpar de José de Anchieta, o apóstolo do Novo Mundo; "Retrato de D. Quixote" publicado em 1944, na realidade, um estudo crítico sobre o Cavaleiro da Triste Figura, sua noiva Dulcinéia del Toboso e sobre a figura do fiel escudeiro Sancho Pança. "D. Quixote é a alma, o sonho. Sancho tem a astúcia de camponês, compreensão dos fatos mais simples".
No terreno da História, publicou grandes obras, tendo destaque "A Cidade Colonial", obra em que analisa o aparecimento das vilas e povoados, como o caso de Campinas, para mostrá-los depois, em seu desenvolvimento histórico. Guardo em minha biblioteca, com especial carinho, um exemplar autografado pelo autor. Foi um apaixonado pela história de Campinas, como mostram seus inúmeros artigos estampados nas páginas do Correio Popular, órgão que representou para ele como uma verdadeira lareira espiritual na defesa das virtudes cívicas mais preciosas do cidadão comum. Resumindo, podemos dizer que a página que mais possa homenageá-lo foi escrita, dia a dia, por ele mesmo, ao fazer suas escolhas de vida, ao eleger o sentido histórico significativo de sua existência. A maior homenagem que se lhe possa prestar, portanto, é conhecer sua vida, para que por ela nos orientemos e possamos seguir, ainda que exiguamente, seus passos. Omegna deixa uma magnífica obra humanística e as memórias de uma vida exemplar, precioso legado para todos nós.
Duílio Battistoni Filho é membro da Academia Campinense de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas - duiliobf@hotmail.com

Escrito por: