Publicado 29/11/2020 - 09h20 - Atualizado 29/11/2020 - 09h20

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Dizem que para as pessoas que vivem muito como estou vivendo até agora, as surpresas vão rareando, na mesma medida dos espantos. Mas, de vez em quando, sou tomado por uma que tem dois personagens: o beiral desde tugúrio que me abriga, e um sanhaço. É que ele, o passarinho azul como o céu, de repente, vindo do nada ou do tudo, para minha surpresa e meu encanto, aparece ali por onde descem as águas das chuvas. Tenho a pretensão de achar que vem me ver. Como, porém, faz isso há tempos, acredito que são os descendentes que vão passando, de geração em geração, a ordem para que não me abandonem.
Mas o que queria contar é que me estava reservada outra surpresa, esta das grandes, de fazer parar coração. É que, faz alguns dias, certa tarde em que eu passeava pelos sonhos que a solidão acaricia, batem na porta. Vou ver quem era e, pimba, precisei me apoiar na grade para não cair. Pois estavam ali diante dos meus olhos, estes pobres olhos que a terra não há de comer, as doces e amadas figuras da minha colega de profissão, jornalista Vivi Pavarini, acompanhada do presidente da Academia Campinense de Letras, escritor e historiador Jorge Alves de Lima, mais a vice-presidente do sodalício, professora e escritora Ana Maria Negrão. Mal entram, comigo meio tonto pelo inesperado, aparece também, como se tivesse saído da essência de um botão de rosa, em cujas cores e perfumes teve sua gênese na limpidez das auroras, minha amiga Eliana Silvia Junqueira Nogueira; por quem tenho amor que a eternidade é pequena para conter.
Pois é, amigos, mas as surpresas não param por aí. Pois Jorge e Ana vinham, simplesmente, me trazer algo com que sequer sonhei: um diploma me concedendo a honra de ser membro honorário da notável Academia Campinense de Letras.
Para falar a verdade já se passaram uns quatro ou cinco dias do evento, mas ainda não consegui me refazer da magnitude do raro privilégio que me foi concedido. Sou um velho jornalista manipulador das letras faz muitos anos, mas pertencer à Academia Campinense é honra de que nunca me julguei merecedor. E agora o orgulho é tal que preciso contar alguma coisa sobre minha saga que embute, afinal, alguns números e acontecimentos realmente curiosos.
Hoje quando o tempo que me resta de vida é provavelmente o mesmo que marcou as "Rosas de Malherbe", costumo dizer que a minha, se assim posso chamar, obra, chama mais atenção pela quantidade de coisas que escrevi do que por algum eventual valor que possa ter. Falarei disso mais adiante, pois antes quero dizer que já publiquei quatro livros, estou com mais dois prontos ("Esta Tarde, Outras Tardes" e "E Restaram as Estrelas") à espera de que o Coronavírus permita que a Editora Lince faça o lançamento, e venho trabalhando num romance que tem o título provisório de "O que Escondem as Neblinas". Mas falo acima que há fatos curiosos nessa história. Um deles: pouquíssima gente sabe, mas meu primeiro romance, editado como livro de bolso pela Editora Abril, no começo dos anos 70, foi best-seller. É que, na época, a empresa então pertencente aos Civita tinha uma espécie de filial em Buenos Aires; e, quando meu trabalho chegou lá, resolveram traduzir para o espanhol, a fim de distribuir desde a Argentina até o México. Segundo soube depois foram comercializados cerca de 100.000 exemplares. O que é fácil de entender, pois eram vendidos em bancas de jornal, a preço baratíssimo; em valores de hoje, algo como cinco reais. Ah, sim, ganhei nada, pois tinha vendido os direitos autorais para a editora. A obrinha se chama "Antes da Estação das Chuvas". Não, não posso empresta-la para ninguém. Pois sequer tenho, guardado como lembrança, algum único ou remoto exemplar...
Pois é, falo acima que minha (ah, esta palavra...) obra embute números que certamente chamam a atenção mais pelo volume do que eventual qualidade. Quem me inventou como cronista foi o jornalista Samuel Wainer quando o seu antigo jornal Ultima Hora foi relançado pela Folha e o famoso homem de imprensa, já falecido, era só diretor de redação. Assim, lá, escrevi diariamente, em cinco anos, 1.825 contos e crônicas. Isso, porém, foi nada diante do que viria depois: é que, novamente fechada a UH, fui para a Folha da Tarde. Onde, durante nada menos de 15 anos, também diariamente, batuquei, nas velhas Remington, 5.475 textos. Que, adicionados aos 960, agora semanais, que já fiz para este Correio Popular, dá um total de 8.260 trabalhos. Postos num livro daria cartapácio com 24.780 páginas. Para quem prefere números picados, algo como uns 70 volumes com 400 páginas cada um.
Para fechar, sem nenhuma falsa modéstia, costumo fazer a seguinte conta: se da quantidade acima de contos e crônicas 500 forem considerados bons (não tenho medo do zero de ótimos); outros 500 mais ou menos, atirando os restantes 7.260 no monturo das solenes porcarias, tá formidável. Até porque, e isso é o que interessa, hoje sou membro honorário da Academia Campinense de Letras. Orgulho sem tamanho. Honra muito além do que poderia algum dia sonhar. Olhaí, escritor Antonio Torres, meu ex-colega de jornal, amigo querido, membro da Academia Brasileira de Letras, e um dos autores brasileiros mais traduzidos no exterior, onde já é lido em cerca de 20 línguas. Nunca serei seu confrade na ABL. Mas ser da Campinense é quase a mesma coisa.
Antonio Contente é jornalista e escritor.

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