Publicado 22/11/2020 - 13h47 - Atualizado 22/11/2020 - 13h47

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Esta é uma história do tempo em que era permitido fumar nos ônibus intermunicipais, interestaduais etc. No instante em que o cara entrou no veículo, de Campinas para São Paulo, a moça já estava sentada na poltrona da janela – e ele, imediatamente, se aboletou ao lado. Foi vendo e conferindo, na medida do possível, que a guria transpirava certa suave beleza, charme; e gostou. Com o detalhe de que foi tomado pelo, como se dizia os velhos tempos, inebriante perfume que dela vinha; talvez tirado de pétalas de flores dos campos.
Ora, amigos, vamos falar a verdade, não há quem não sinta espécie de tensão, tesão, em viajar, notadamente de ônibus, ao lado de uma beldade de talhe que leva à perfeição do raro. Assim que o veículo percorreu alguns quilômetros de estrada, nosso herói se encontrava quase exausto por exercitar a obrigação que passou a sentir de puxar conversa. Por isso chegou a se assustar ao ouvir a voz da criatura do lado a perguntar:
--- Se importa?
Ele se vira e sopra:
--- Se eu me importo?
--- Que eu fume – ela mostra o maço de cigarros – há quem não goste do cheiro.
--- Não — ele sorri, subitamente seguro – até porque eu...
--- Ah, já sei, vai aceitar um – quem sorri é ela, dentes alvíssimos.
--- Ao contrário. Ia dizendo que eu, por ter sido um fumante inveterado, não me importo com o cheiro.
Ela acende e, após uma longa tragada, soltando fumaça pela boca e pelo nariz, pega o papo:
--- Já fumou?
--- Três maços por dia.
--- E conseguiu deixar?
--- Pois é, consegui. Na verdade, uma barra pesadíssima. Não foi nada fácil. Aconteceu, porém, que eu tinha que deixar.
--- Tinha? – Ela bate a cinza --Tinha como? Quem estava obrigando?
--- Não, ninguém me obrigava. No duro, se tratava de outro tipo de imposição.
--- Não estou entendendo.
--- Na verdade aconteceu que, por causa dos três maços diários...
--- Saquei – a moça interrompe – infarto.
--- Negativo, nada de infarto. Foi pior. Fui acometido por uma baita câncer no pulmão.
--- Que horror! – A fulana olha, cabreira, para a brasa que segurava entre os dedos.
--- Na realidade – o camarada coloca – isso é um risco que todas as pessoas que fumam correm. Mas há aqueles a quem não acontece nada.
Antes de responder, ela vacila. Depois de um tempinho, dá a última tragada, para prosseguir:
--- Devo dizer que você é a primeira pessoa que conheço...
Vacila, como se estivesse com medo de pronunciar a palavra hedionda. Por fim, solta:
--- Você é a primeira pessoa que conheço que contraiu câncer por causa do fumo.
--- Bom, há outras. Só que eu acho que você não deve se preocupar muito com isso. Meu pai, por exemplo, está com quase 90 anos e fuma desde os 18.
Nesta altura a moça tira o maço da bolsa e fica olhando para a embalagem de cores fortes.
--- Nu duro no duro – nosso herói torna – há uma preocupação a menos para você.
--- Há?
--- Claro que há. As mulheres são muito menos suscetíveis a certas doenças do que os homens.
--- Câncer no pulmão, por exemplo?
--- Além do infarto. Li algo a respeito, em algum lugar.
A moçoila volta a guardar a carteira de cigarros, ao mesmo tempo em que observa:
--- Bom, no que se refere a você, pelo jeito, ficou bom.
--- Na verdade fiquei. Só que você nem imagina...
--- Imagino. Ah, pode ter certeza que imagino...
Nesse ponto, para o papo. Após alguns longos minutos de silêncio, o rapaz, algo ansioso, se vira para a dona e pede um cigarro.
--- Você vai fumar? – Ela arregala os olhos – E o... E o...
--- O câncer? Tudo mentira. Inventei a história para poder levar um papo com você.
Cada um acende o seu. E, seis meses depois, batendo as cinzas no cinzeirinho de um criado-mudo de motel, ele pergunta para a criatura:
--- Quer casar comigo?
Em meio a uma enorme baforada, ela apenas responde:
--- Topo.
Antonio Contente é jornalista e escritor

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