Publicado 15/11/2020 - 08h58 - Atualizado 15/11/2020 - 08h58

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Ainda hoje, passado tanto tempo, ele é apontado, num certo miolo no centro de Campinas, entre o Café Regina e o Giovanetti do Largo do Rosário, como um homem de muita sorte. E é reconhecido por alguns apesar do uso da máscara contra o Coronavírus a que estamos obrigados. Mas foi bem antes da peste que eu estava, certa manhã de sábado, tomando um chope com o lendário repórter-fotográfico Neldo Cantanti, quando ele entrou. Como sei que meu colega é um repositório de histórias sobre personagens da cidade, aproveitei, baixando a voz, ao perguntar:
- Mas afinal – aponto discretamente – dizem que aquele cara nasceu com o "bumbum" pra lua; você sabe por que ou se trata apenas de mais uma lenda aqui da área?
- Mas que lenda, meu? O cara teve uma sorte, em certo episódio de sua vida, que nem que viva 120 anos a turma vai esquecer.
Daí começou a contar que, ali por volta de 1980, o referido sujeito andava saindo com uma bela garota. Tudo caminhava bem até que, certa manhã, ao namorar no banco de uma das praças da cidade (acho que no Jardim Carlos Gomes), a garota de repente murmura, olhando para as palmeiras:
- Sabe que estamos saindo há quase um ano e você nunca me deu nada?
- Como assim? – Há o espanto – Nunca te dei nada? Explica, me fazendo o favor.
- Bom, veja, não estou querendo ser cara de pau; mas passou o Dia dos Namorados e você nem aí; veio o Natal, idem; meu aniversário, e não aconteceu nada, nem um pastel no Voga...
- Escuta – ele corta – você está insinuando que eu sou pão duro?
- Não é isso – a garota pisca intensamente – mas nem sequer uma simples flor já ganhei de você.
- Querida – o sujeito não se altera – nós estamos começando a vida, estou indo bem no trabalho, logo logo a gente vai casar.
- Tá certo... Tá certo... Mas até os lanches que fazemos juntos cada um paga o seu.
- Isso não será para sempre.
- Assim espero... Até porque estou desempregada e o meu FGTS está acabando...
Esse papo algo surrealista teria acontecido num fim de semana. Quando foi no sábado nosso personagem passou no quitinete que a guria dividia com uma amiga. Diante na namorada, sorri:
- Olha – aponta para o relógio – são 11 e meia da manhã. Vim te pegar para uma feijoada.
- Pode tirar o cavalinho da chuva, meu, pois eu estou mais dura do que bochecha de estátua!
- Isso não tem a menor importância – ele sorri.
- Como não tem importância? Nós sempre não rachamos as contas? Desde que nos conhecemos?
- Mas hoje eu pago, fiz uns extras dos bons. E tem mais.
- Tem? – Ela planta no canto da boca um risinho irônico.
- Exatamente. Além de pagar a feijoada, vou te dar um presente.
- Deus do céu – a fulaninha ergue os braços – alguma alma penada se salvou...
Cerca de uma hora depois o casal entrava no falecido restaurante Barão, onde ocupou uma mesa de fundo. Em mais alguns instantes a suculenta feijoada fumegava diante dos dois.
- Nem estou acreditando – a mocinha geme.
- E o melhor será o presente que vou te dar... - O rapaz sorri.
- Olha – ela levanta o garfo – de tanto você repetir que vai me dar um presente, termino acreditando.
Ao invés de responder, ele retira um envelope da bolsa que carregava e o coloca entre os dois pratos.
- Aí está – murmura – É para você.
- É um cheque? – Ela faz gesto de quem ia apanhar.
- Prefiro manter a surpresa. Te peço que não abra agora, deixa pra quando chegar em casa.
- É um cheque, não é?
- Talvez melhor...
Nesse ponto, Neldo, o colega jornalista que me contava o caso, faz pausa. Após, suspira.
- Sujeito de sorte está ali – aponta discretamente pro homem no recinto do bar.
- Sim, tudo bem. Mas é um sujeito de sorte por que?
- Pelo seguinte: no envelope que deu para a namorada, estava um bilhete inteiro da Loteria Federal que, na época, pagava quatro milhões de cruzeiros.
- Sim, mas a sorte do camarada, onde é que se encontra?
- A sorte é que a fulana botou o envelope na bolsa contrariada; mas, no sorteio daquela tarde de sábado, ganhou, na cabeça. Ganhou e sumiu, sem deixar rastros.
- Diabo – coço a ponta do nariz – então o cara ali tem é uma tremenda ziquizira.
- Absolutamente – o colega termina – pois, na verdade, ele comprara a quadra completa, que era vendida na época. A menina levou quatro; mas ele ficou com doze... Que administrou muito bem, pois está rico até hoje, casado, cheio de filhos e feliz.
- E casou com ela, com a tal menina, naturalmente...
- Não, outra. Pois ela, como te contei, sumiu. Dizem que agora é fazendeira em Garça, ali para os lados de Marília...
Antonio Contente é jornalista e escritor.

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