Publicado 01/11/2020 - 09h02 - Atualizado 01/11/2020 - 09h02

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Reparem, amigos, que hoje, como "per omnia saecula, saeculorum", é real uma preciosidade que muitas pessoas talvez até busquem intensamente, sem o encontrar jamais: a doçura e o significado do silêncio. Há quem diga que não se pode ouvi-lo, possibilidade que descarto completamente. Pois tudo que nos toma fala à percepção dos sentidos, o que talvez tenha levado William James a afirmar que o silêncio é tão importante como as palavras. A nossa época, principalmente nos países subdesenvolvidos (ou em desenvolvimento, para os mais otimistas), como o Brasil, é um tempo devastado pelos ruídos. Eu mesmo conheço dezenas de pessoas que sequer sabem o que seja um ruflar de asas de passarinhos. Ou que jamais navegaram, no perpassar de brisas, de mãos dadas com as melodias que elas não explicitam, porém sugerem. Aí é que está, os silêncios sugerem. Por isso mais do que falar, contam...
Há certos sons, absolutamente sagrados, que só os silêncios possibilitam que a eles cheguemos. Veja-se, amigo, numa isolada casa de algum litoral. É noite, e, deitado na sua cama, ou rede, você, antes de dormir, tem os sentidos repousados. Será justamente a um deles que o silêncio trará o bater, lá longe, das ondas do mar na arrebentação. É o primeiro passo para você descobrir que ali naquele pequeno e restrito universo lhe estão reservadas outras importantes melodias que apenas o silêncio propicia. O farfalhar que as brisas provocam entre as folhas é outro deles. Ou o assobio, nas frinchas do telhado se a noite for de ventos fortes, a chamar para a dormência que o silvo concede à lassidão do repouso. Somente tomado pelo silêncio, ao acordar, poderá chegar até você o canto de algum perdido pintassilgo da aurora. Ou o arrastar das folhas sendo levadas daqui para lá para o seu luminoso destino de, morrendo sobre a terra, a ela dar vida.
Sou, modéstia à parte, dono de preciosos silêncios. Uns já vividos e que retornam de vez em quando em alaridos, com os toques da saudade. Aqui mesmo sob o meigo telhado deste tugúrio na Chácara da Barra que me cobre e protege, tenho a sorte de me colocar a salvo dos sons nocivos deste insensato mundo. Sorte que dimensiono como absolutamente enorme. É que escutei, vindo de certa distância, à noite, não faz muito tempo, um som. Que identifiquei como saído de algum carro que passou muito lentamente pela rua com o motorista a escutar a valsa Danúbio Azul. Isso agora, no correr de 2020, antes da chegada da peste que assola o mundo. Só pode ter sido milagre do silêncio, nos dias atuais, na escuridão sombreada por estrelas, alguém passar a ouvir tal tipo de música. Coisa do sobrenatural, tive certeza. Algum dos meus fantasmas do bem e do bom a dar sinais de que nunca será vã minha eterna busca das ternas impossibilidades.
Mas pra mim dos maiores símbolos da importância e das belezas a que conduzem os silêncios mora aqui mesmo em Campinas, em local pleno de ruídos, naquela que chamo de “A Árvore Ressuscitada”. Trata-se do fícus benjamim que existe na pracinha quase em frente ao hoje praticamente em ruinas teatro do Centro de Convivência Cultural. Tal árvore considerada por algum maluco como condenada nos anos 1990, foi derrubada, ficando apenas o tronco. Só que, como tardaram a arrancá-lo, propiciou que um primeiro pequeno galho rebrotasse no que restou. Logo outro, e outro. Do meu bissexto posto de observação no City Bar, conclui que, de repente, a belíssima árvore poderia estar ressuscitando. Escrevi, no Correio Popular, e em meus alfarrábios, sobre isso. Meses depois encontrei, certa manhã, aos pés dela, as amigas Raquel Maria de Almeida Prado, professora aposentada da PUC-Campinas e ex-diretora do nosso Museu de Arte Contemporânea, infelizmente, hoje, já falecida, acompanhada da esplêndida pintora, poeta a escritora Anna Maria Badaró. Estavam, simplesmente, alimentando o vegetal; com um adubo especial que Raquel trouxera da Inglaterra, feito com insumos colhidos nos Montes Urais, Cazaquistão. Fui chegando e perguntei se elas se empenhavam na preservação da beleza, meta a que sempre se propuseram. Foi ai que Raquel me disse:
- Olha, quando os passarinhos logo mais voltarem a cantar nos galhos desta árvore, estarão nos repetindo a velha lição da importância de sermos cúmplices do silêncio, para podermos ouvi-los.
- De fato – Anna completou – até porque nos dias frios em que os passarinhos não cantem o farfalhar destas folhas será a nossa canção.
A árvore, mais de 30 anos passados, atualmente, está lindíssima. E, ainda bem antes da peste do coronavírus, derrubando uma breja no City, lembrei das duas amigas ao escutar, apesar do barulho dos carros, o silencioso toque de beleza do canto de um sabiá-laranjeira. Vinha do ressuscitado fícus benjamim.

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