Publicado 12/11/2020 - 06h48 - Atualizado 12/11/2020 - 06h59

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Outubro, seis anos atrás. Uma programação de música chamada Arreuní era comandada pelo músico João Arruda e reunia, no palco do Centro Cultural Casarão, violeiros e outros músicos ligados à cultura regional daqui e dali. Pois acabei me "arreunindo", por sorte, com o próprio João, Esther Alves, Moreno Overá, Iandara Pimentel e mais os violeiros daquela noite - Paulo Freire (SP) e Valdir Verona (Caxias do Sul-RS).
Algumas semanas antes, iniciando as conversas e ensaios, me pediram a sugestão de uma canção. Para se ter uma ideia da seca que atravessávamos, eu, que não costumo escolher músicas a partir de um tema externo, logo pensei em uma que evocasse a chuva, pois era de fato um assunto presente e sensível a todos.
Naquele ano, Campinas registrava a maior seca em 123 anos. Carecíamos mesmo da chuva, ainda mais porque na chamada "estação das águas", entre outubro de 2013 e março de 2014, tinha chovido só a metade do que era previsto para o período. Mas e hoje, que seca é essa que vivemos, apesar das boas chuvas que chegam?
Volto a 2014. A canção escolhida apareceu tão imediatamente, que hoje imagino o contrário: ela é que devia estar pairando por ali, assim como alguma nuvem que andava pelo céu, esperando para me capturar. Ou, ainda, era como reencontrar uma preciosidade, um legado deixado por compositores e cantadores fundamentais na consolidação da nossa cultura do campo. Além disso, no meu caso, também significava abrir a antiga caixa de joias da família, herança de melodias, versos, vozes e jeitos de cantar. Guardada na memória por tantos anos, esta canção fazia parte da trilha sonora da infância na cidade pequena do interior de São Paulo, e, diziam, era linda na voz do meu avô, assim como eu já a conhecia, linda, na voz da minha mãe: "Pingo D'Água", de João Pacífico e Raul Torres.
Violeiros daqui se encontraram com o violeiro que chegava do Rio Grande do Sul, enquanto eu memorizava a letra e buscava o lugar onde vibrava a voz e aflorava a emoção contida nos versos. No dia da apresentação, antes de cantar, disse alguma coisa sobre a escolha da canção, me voltei brevemente à paisagem poeirenta que se via pelas janelas, um leve suspiro sentido em toda a plateia, a concordância sobre a precisão que se tinha...
"Eu fiz promessa
Pra que Deus mandasse chuva
Pra crescer a minha roça
E vingar a criação
Pois veio a seca
E matou meu cafezal
Matou todo o meu arroz
E secou meu algodão
Nesta colheita
Meu carro ficou parado
Minha boiada carreira
Quase morre sem pastar"...
Era lindo, junto com as violas, entoar aquela melodia e colocar, em cada palavra, o melhor sentido que eu podia, assim como era belo ver o rosto de quem me ouvia, olho que brilhava.
Ana Salvagni é cantora, regente e poeta.

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