Publicado 25/11/2020 - 08h56 - Atualizado 25/11/2020 - 08h58

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No fim dos anos 80, o personagem dessa nossa história viveu um sonho à beira do Mediterrâneo que, hoje, seria difícil de acontecer. Acompanhe-o na sua viagem, e concorde comigo como essa é mesmo uma verdade.
Ele já se preparava para o almoço quando o Chefe o chamou para um assunto urgente. Humm! Um papo àquela hora! Aí vêm problemas.
- Me diga lá, você conhece a Itália? Não? Então se prepare: mais cinco ou seis dias, e Nápoles vai estar aos seus pés. Gostou da notícia?
Quase caiu da cadeira. Como Itália, Nápoles? Não sabia quase nada de italiano, não tinha nem passaporte.
- É o seguinte, vou lhe explicar - diz-lhe o Diretor: a nossa empresa está patrocinando um barco de 40 pés, o Souza Ramos, que vai participar de uma regata oceânica na Europa, a One Ton Cup. Grandes embarcações a vela, sabe? Vários países vão estar lá, e o próprio Eduardo Souza Ramos, o dono do barco, quer um de nós na sua tripulação. Você vai com eles, aproveita e, depois, me relata tudo, Ok? Isso é uma ordem, certo? - dizia-lhe, sorrindo.
Pronto, estava ele com um problemão nas mãos. Mas a ideia não deixava de ser maravilhosa. Ah, sim, precisaria de um caderno para os relatos ao Chefe.
Esse foi o seu Diário de Bordo, que começou ainda no Brasil.
25 de abril de 1989. Um primeiro desafio já a frente: conseguir meu Passaporte em cinco dias. Expliquei ao senhor Eduardo, que os Passaportes estavam demorando quase um mês para saírem, uma fila que dava a volta no quarteirão. Na minha frente, ele pegou o telefone, ligou para o Diretor Geral da Polícia Federal, bateu um papo sobre jogos de tênis, amenidades, e explicou o problema. Desligou, e virou-se para mim: “você vai agora a Viracopos, procura o responsável pelo setor de expedição de passaportes, dá seu nome”. Nessa mesma tarde já estou com o meu documento na mão.
30 de abril de 1989. Embarcamos, eu e mais os dezessete da tripulação. Viagem a bordo de um Boeing 747 com destino a Paris. Depois, dentro do imenso aeroporto Charles de Gaulle, procuramos a conexão para Nápoles.
1º. de maio de 1989. Cinco horas na frente do Brasil (fuso horário mais horário de verão). Estamos instalados no grande Hotel Jolly, com visão para toda a Baia de Nápoles. Logo mais, os primeiros contatos da equipe com a Marina de onde vão partir os barcos em competição. Conheci, hoje, Maurício Romano, assessor de imprensa da Regata, que me dá as principais informações sobre tudo ali: a língua adotada, o inglês, o que se podia fazer e não fazer, como contatar o Brasil, coisas assim.
2 de maio de 1989. Acordei cedo: a regata vai começar às 12 horas.
10 de maio de 1989. Combinei com o senhor Eduardo em mandar para o Brasil informações sobre nossa participação na Regata, acostumando-me com a tarefa de datilografar tudo numa Olivetti do hotel, à noite. Depois, enviar pelo novo sistema ainda novidade, o fac-símile. O desempenho do barco, já com algumas vitórias, segue para uma agência noticiosa de São Paulo, contratada, que se incumbe de distribuir para a imprensa brasileira.
12 de maio de 1989. Um problema: preciso mandar fotos para o Brasil de alguns momentos da Regata, mas o jornal “Il Matino”, que temos contato (o fotógrafo é deles) não faz esse serviço. A conselho de Maurício, procuro um endereço no centro de Nápoles. Encontro. Um senhor de poucas palavras (em italiano) tira do fundo de um armário de seu quarto uma maquineta e conecta ao telefone. É um aparelho de radiofoto, que passa as fotos para a agência brasileira. Surpreendo-me.
15 de maio de 1989. Uma visita inesperada ao píer: Careca, simpático, em grande evidência no futebol mundial. Vem com a filha, uma menininha.
18 de maio de 1989. Numa pausa de fim de semana, um passeio a Pompeia, aos pés do Vesúvio: a cidade histórica, cuja população desapareceu sob as lavas do vulcão, continua estruturalmente preservada. Um detalhe curioso: uma grande edificação tem, no alto, a escultura de um membro (sic). Peço explicação ao guia. “Ah”, responde em italiano, com um sorriso de canto de boca, “lí era un luogo di prostituicione, va bene?”
20 de maio de 1989. É o último dia da One Ton Cup. Acontece numa grande festa, à noite, no histórico Castelo do “Ovo”, bem em frente à Baia.
21 de maio de 1989. A tripulação retorna, exausta e satisfeita.
O Diário de Bordo termina aqui. O nosso personagem ainda iria continuar em Nápoles mais alguns dias: esperava a esposa, que vinha do Brasil, para mais dez dias de sonhos. Mas esse é assunto para um outro diário, mais íntimo e... não muito apropriado para revelações nessas linhas. Com certeza.
Gustavo Mazzola é jornalista e membro da Academia Campinense de Letras - mazzola@sigmanet.com.br.

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