Publicado 27/11/2020 - 07h45 - Atualizado 27/11/2020 - 07h45

Por Estadão Conteudo

Das 56 pessoas envolvidas no acidente, 41 morreram e 15 sobreviveram, das quais cinco permanecem internadas em unidades de saúde da região

Reprodução/Globo News

Das 56 pessoas envolvidas no acidente, 41 morreram e 15 sobreviveram, das quais cinco permanecem internadas em unidades de saúde da região

A principal linha de investigação da Polícia Civil é que o motorista do ônibus que se envolveu no acidente com ao menos 41 mortos em Taguaí, no Interior de São Paulo, tenha cometido homicídio culposo (quando não há intenção de matar). Sobrevivente da tragédia, ele também pode responder por lesão corporal. A Polícia Civil de São Paulo aguarda laudos técnicos para esclarecer o que ocorreu no acidente, mas afirma que também apura versões conflitantes apresentadas pelo motorista do ônibus, por um caminhoneiro que teria sido ultrapassado pelo ônibus e pelo passageiro sobrevivente do caminhão envolvido no acidente.
De acordo com a polícia, a versão apresentada pelo motorista do ônibus é de que o freio do veículo falhou e teve de alterar a direção para tentar evitar algo pior. Já as versões do caminhoneiro que teria sido ultrapassado pelo ônibus e do passageiro sobrevivente do caminhão são semelhantes: apontam que o ônibus tentou ultrapassar em área proibida.
Sem autorização para prestar o serviço, o veículo conduzia funcionários de uma fábrica têxtil para o trabalho, quando colidiu contra a carreta na Rodovia Alfredo Oliveira Carvalho (SP 249). O motorista do caminhão, que morreu, também estava em situação irregular: ele não tinha habilitação para conduzir esse tipo de veículo.
Para os investigadores, só há uma certeza sobre a dinâmica do acidente até o momento. "O ônibus invadiu a faixa contrária, e o que motivou a isso é o caminho da nossa investigação agora", diz a delegada Camila Rosa Alves, responsável pelo caso.
Segundo a investigação, o ônibus teria se deparado com outro caminhão, que estava em baixa velocidade à frente, e entrou na contramão. A manobra provocou a batida com a carreta.
Resta saber se o movimento aconteceu numa tentativa irregular de ultrapassagem, já que o trecho da colisão é de faixa contínua. A outra hipótese, alegada pelo motorista, é que houve uma falha no sistema de freio e o condutor teria sido obrigado a trocar de faixa para evitar bater na traseira do outro caminhão.
A delegada também afirmou que o caminhoneiro que teria sido ultrapassado pelo ônibus em uma das hipóteses investigadas "diz que estava em velocidade reduzida em um trecho de curvas, que ele só escutou o barulho de frenagem e, quando viu, já viu o acidente. E que o motorista teria tentado ultrapassar em local proibido". Para indiciar ou responsabilizar o motorista do ônibus, no entanto, os investigadores terão que ter evidências mais nítidas, relatou Camila.
Para isso, a Polícia Civil espera resultado de perícia no veículo. "Tudo indica que não tenha sido uma falha mecânica, mas não tenho como afirmar isso sem o laudo", afirma a delegada.
No inquérito, também foram solicitados exames toxicológicos para os condutores. Os tacógrafos também foram apreendidos, mas a delegada evitou informar a velocidade indicada dos veículos. No local, o limite para veículos pesados é de 80 km/h.
"À polícia, testemunhas disseram informalmente que o condutor seria conhecido por exceder o limite permitido. Caso a investigação confirme que houve imprudência, ele deve responder criminalmente pelas mortes e ferimentos das vítimas. Já se a hipótese de falha mecânica for verdadeira, o motorista não seria indiciado.
Vítimas
Seis vítimas do acidente permanecem internadas em unidades de saúde da região. Uma delas recebe cuidados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu, outra no Pronto Socorro de Avaré, duas encontram-se na Santa Casa de Avaré e duas na Santa Casa de Itaí. Ao todo, 41 pessoas morreram na colisão e 15 sobreviveram ao acidente, sendo que cinco já tiveram alta hospitalar.
Itaí faz velório e enterro em série das vítimas do acidente
Às 3h45, em plena madrugada, Margarete Santos, de 39 anos, segurava um arranjo de flores e assistia em silêncio a terra encobrir o caixão do marido Claudinei Barboza, de 30. Acompanhando a viúva havia apenas uma tia e quatro coveiros. Entre o corpo chegar ao cemitério e o fim do sepultamento foram apenas 15 minutos.
Aquela era a sexta vez em poucas horas que a cena se repetia no Cemitério Municipal de Itaí, onde moravam 37 dos 41 mortos no acidente. Com muitos corpos a enterrar e orientação do Instituto Médico-Legal para evitar o mau cheiro, os velórios duravam duas horas e os sepultamentos, feitos a toque de caixa e na presença de poucas pessoas, vararam a noite. Todos os caixões estavam fechados. Em alguns, havia uma pequena foto da vítima.
"Ele gostava muito de pescar e estava pronto para ajudar o outro. Fazia amizade muito fácil", disse Margarete sobre o marido. "Vivia reclamando que o motorista do ônibus corria muito e a pista era perigosa, sempre via acidente." Reclamação semelhante teria feito Tiago Aulfs, de 25 anos, que era treinador de um time de várzea e décima vítima sepultada em três horas. O caixão foi enterrado com a bandeira do Unidos do Capitão. "Ele ficava preocupado porque o motorista andava em alta velocidade", diz o cunhado Wesley Souza.
Sem iluminação adequada, o cemitério precisou receber caminhões de luz de concessionárias de rodovias para os velórios em série. Ainda assim, familiares e parentes das vítimas usaram lanterna de celulares para guiar os passos até as covas abertas.
"A gente queria velar por mais tempo, mas só tivemos duas horas. Achei injusto", disse o administrador Ricardo Santos, primo de Ana Santos, de 31 anos. Ao fim do enterro, houve uma salva de palmas discreta. "Ela trabalhava na fábrica há 12 anos e estava juntando dinheiro para ter um negócio próprio. A família vai abrir o negócio e pôr o nome dela em homenagem."
Antes da tragédia, os novos túmulos em Itaí variavam entre 12 e 15 por mês. Só na quarta-feira e ontem, no entanto, foram escavadas mais do que o dobro: 37.
"É o dia mais triste da história de Itaí", disse o prefeito Thiago Michelin, que compareceu ao velório coletivo. A prefeitura decretou luto de três dias e manteve aberto só serviços essenciais. Lojas também cerraram as portas e colaram cartazes de pêsames.
Segundo Michelin, a maioria das vítimas tinha até 27 anos. "São jovens que acabaram de entrar no mercado de trabalho e estavam no primeiro emprego", disse.
Um dos casos foi de Aline de Oliveira, de 20 anos. A diversão dela era aquela fábrica. Ela estava crescendo aos pouquinhos e ia começar a pagar as coisas dela”, disse o irmão Djair Oliveira.
Lucielen Firmino, 27 anos, trabalhava de costureira. "O sonho dela era ser modelo. Ela desfilava para loja de roupa, calçado, perfume", lembrou a mãe Tereza Firmino, de 50, que, em vez de chorar, sorriu e distribuiu abraços na maior parte do velório. "Minha filha era extrovertida. Tenho certeza de que ela está feliz de me ver assim."
A irreverência também era a principal característica de Elisângela Aparecida Mingote. "Ela era muito alegre, vivia todos os dias como se fosse o último", disse o primo Paulo Mingote.

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