Publicado 27/11/2020 - 07h36 - Atualizado 27/11/2020 - 07h36

Por Da Agência Anhanguera

É o primeiro trabalho a associar populações celulares resistentes à infecção viral aos aspectos clínicos

Cedoc/RAC

É o primeiro trabalho a associar populações celulares resistentes à infecção viral aos aspectos clínicos

Pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) descobriram o possível mecanismo de ação da Covid-19 no pulmão humano. O levantamento da hipótese foi possível após criarem um mapa celular de referência desse órgão saudável para investigar as potenciais formas de como o novo coronavírus avança a seu estágio severo.
Para elaborar esse mapa, os cientistas avaliaram a diversidade celular do pulmão por meio de inteligência artificial, a partir de estudos de 130 mil células pulmonares sequenciadas individualmente.
Aluno do Programa de Pesquisa em Medicina da Unicamp e autor do estudo, Davi Sidarta Oliveira esclarece que "ao poupar essas células em detrimento das demais, o novo coronavírus parece causar um desbalanço celular no pulmão que levaria a um aumento dos níveis de hormônios pró-inflamatórios — explicando, pela primeira vez, as características clínicas da doença. Esses resultados nos permitiram criar um modelo teórico da fisiopatologia da Covid-19, com grande potencial para pesquisas futuras que investiguem modos de atenuar a gravidade e a duração da doença."
Após a confecção do atlas celular do pulmão humano, os pesquisadores voltaram sua atenção para as células contendo o receptor para a entrada do vírus: as células alveolares. Para a sua surpresa, descobriram que essas células, além de expressar o receptor do vírus, também expressam componentes chave para a regulação da inflamação aguda, da função cardiovascular e da coagulação. Por isso, frisa Sidarta, decidiram avalia-las mais cuidadosamente. "(...) fomos capazes de reconstruir a linhagem alveolar humana. As células alveolares são, constantemente, as repostas no pulmão sadio", comentou.
Durante o desenvolvimento da pesquisa, se surpreenderam novamente ao perceber que o receptor do vírus estava presente apenas em células alveolares tronco ou terminalmente diferenciadas. Mas não nas células intermediárias, que, por sua vez, contêm componentes necessários e suficientes para desencadear uma resposta inflamatória aguda e com impacto na circulação e coagulação.
Uma das características da Covid-19 é a lesão pulmonar aguda, devido à inflamação exacerbada causada por disfunções no sistema cardiovascular e por eventos tromboembólicos — isto é, por alterações na coagulação sanguínea. Entretanto, pouco se sabe ainda sobre como a infecção viral leva a este quadro.
Sidarta enfatizou que esse é o primeiro trabalho a associar populações celulares específicas suscetíveis ou resistentes à infecção viral aos aspectos clínicos. "O trabalho também chama a atenção por ser a primeira produção nacional utilizando esse tipo de tecnologia, cuja análise de dados é extremamente sofisticada quando comparado aos atuais métodos usados no País, inaugurando uma nova época de inovações na genética e biologia computacional brasileiras", disse.
A pesquisa foi realizada no Laboratório de Sinalização Celular do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (Cepid-OCRC) da Unicamp. Além de Sidarta, também assinam o artigo os pesquisadores Carlos Poblete Jara, Adriano Ferruzzi, Munir Skaf, William Velander, Eliana Araújo e Licio Veloso. O estudo resultou no artigo científico publicado na renomada revista Scientific Reports (Nature). Essa é a primeira produção nacional que emprega o sequenciamento de células únicas, capaz de gerar atlas celulares de qualquer órgão humano. Também é a primeira evidência de associação entre esses três sistemas a nível molecular com as células-alvo da Covid-19.

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