Publicado 27/11/2020 - 16h06 - Atualizado 27/11/2020 - 16h06

Por AFP


Na noite de 3 de novembro, quando o capitão Hussen Besheir, do Exército Federal da Etiópia, iniciou sua guarda na base de Dansha, ninguém poderia imaginar que a primeira batalha do conflito estava prestes a estourar na região separatista do Tigré.

Era quase meia-noite quando ele viu faróis se aproximando. Dez homens armados das forças especiais de Tigré desceram do carro. "Não estamos aqui por sua causa. Queremos falar com os comandantes" do campo, disseram eles, lembra Hussen.

O capitão negou-lhes o acesso. Rapidamente, a situação se agravou e foram ouvidos tiros, os primeiros nesse conflito, que, três semanas depois, já deixou centenas de vítimas e obrigou dezenas de milhares de pessoas a fugir.

Em 4 de novembro, o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2019, lançou uma "operação militar" para expulsar os líderes dessa região dissidente, membros da Frente de Libertação do Povo Tigre (TPLF). Atualmente, o Exército federal ameaça assumir o controle de Mekele, capital regional.

Esta semana, uma equipe da AFP foi autorizada a entrar no campo de Dansha, que abriga o 5º Batalhão do Comando Norte do Exército da Etiópia, enquanto a região do Tigré está praticamente isolada. Na base, os invólucros dos projéteis e orifícios nas paredes de vários quartéis são vistos no solo.

Para a AFP, Hussen e seus camaradas descreveram horas de combates com armas automáticas e granadas contra as forças de Tigré. Mas também contra soldados de sua própria guarnição que se juntaram às fileiras da TPLF.

Em alusão às alegações do primeiro-ministro Abiy Ahmed, que disse que soldados "vestindo pijamas" morreram no último 4 de novembro, Hussen observa: "O que aconteceu aqui foi pior do que isso". "O termo traição não permite descrever o que sinto. Eram soldados com quem comíamos e bebíamos", lamenta.

O governo de Addis Abeba apontou esse ataque de Dansha e outro, contra uma base em Mekele, como justificativas para a sua ofensiva no Tigré. Mas o alto funcionário da TPLF Wondimu Asamnew rapidamente desafiou esta versão: "Não houve ataque" e Dansha foi apenas um pretexto para invadir o Tigré.

Nos últimos meses, a tensão entre Abiy e a TPLF havia aumentado e havia temores de conflitos armados.

A TPLF controlou o sistema político e de segurança do país com mão de ferro por quase três décadas, até que Abiy foi nomeado primeiro-ministro, em 2018, e marginalizou a formação.

Em Dansha, as forças federais eram apoiadas por tropas de Amhara, região vizinha ao sul.

Tadilo Tamiru, um sargento das forças especiais de Amhara, estava a 50 km de Dansha quando sua unidade de 170 homens recebeu ordens para seguir até o norte e ajudar os soldados do governo. "O apoio que demos às forças etíopes foi muito importante", conta, garantindo que esse reforço mudou o rumo da batalha.

As restrições de acesso à região do Tigré impostas desde o início do conflito e as linhas telefônicas cortadas, além do funcionamento da internet, dificultam a verificação das versões de cada lado.

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