Publicado 18/10/2020 - 16h46 - Atualizado 18/10/2020 - 16h46

Por Estadão Conteudo

Logo após a soltura de André do Rap, o presidente do STF determinou sua volta à prisão, mas ele já havia fugido

Divulgação/Polícia Civil

Logo após a soltura de André do Rap, o presidente do STF determinou sua volta à prisão, mas ele já havia fugido

A TV de 20 polegadas ficou para o detento Cássio Clay Pereira. Calça, quatro calções, duas blusas, dois pares de tênis, chinelos, toalhas, cobertor, fronhas, lençóis, quatro camisetas, travesseiro, uma Bíblia e dois livros — A Vida de São Francisco de Assis e Sexo para Adultos. Tudo isso foi entregue ao preso Ronaldo Marinho. André Oliveira Macedo, o André do Rap, saiu só com a roupa do corpo da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau.
A doação dos bens para colegas de cela foi o último gesto do bandido ostentação, um ato de populismo carcerário do chefão do tráfico. Ao deixar a penitenciária, André do Rap carregava só um envelope, onde havia o alvará de soltura concedido pelo ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, ao homem condenado a 25 anos de prisão por tráfico internacional de drogas. Eram 10h15 de sábado. Devia ir, por ordem do STF, a um endereço no Guarujá. Não foi. Desde então, está foragido.
Mais de 600 policiais estão envolvidos na operação de captura, incluindo agentes de São Paulo, Paraná e da Polícia Federal. O Estado de SP está gastando, a cada 120 dias, cerca de R$ 2 milhões em pessoal e material para recapturá-lo. Ele também foi incluído na lista vermelha da Interpol.
A história de André do Rap, 43 anos, é a de um tipo raro de bandido. Não por ter enganado a Justiça — como lembrou o presidente do STF, Luiz Fux. Mas porque foi acusado de enriquecer, passando para trás o Primeiro Comando da Capital (PCC), sem pagar com a vida. Ele integra um grupo que, primeiro, uniu-se à mais poderosa máfia da Europa, a Ndrangheta, da Itália, para, em seguida, construir sua própria rede de distribuição de drogas no Velho Continente. André do Rap e seu colega Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, tornaram-se os maiores barões da droga do Brasil.
Eles são os responsáveis pela Sintonia do Tomate, setor do tráfico internacional de drogas do PCC que tem à disposição doleiros para mandar para o Paraguai e Bolívia o dinheiro recebido pelo embarque da droga no porto de Santos. O que poucos sabem é que o PCC entrou no radar da DEA (a agencia antidroga americana), que já detectou membros da facção em Miami.
Mas não só. Policiais paraguaios, argentinos, britânicos, holandeses, espanhóis e italianos também buscam no Brasil informações sobre o cartel brasileiro da droga. Em 2016, a DEA convidou um investigador brasileiro para ir aos Estados Unidos falar sobre a facção a policiais de seis Estados americanos. O convite surgiu pouco após o nome de Marco Willians Camacho, o Marcola, líder do PCC, passar a ser ouvido pelos americanos em investigações sobre as ramificações no Peru e na Bolívia do Cartel de Sinaloa, a mais importante organização criminosa do México.
Como foi que ele entrou no crime?
Nascido em Santos, em 1977, André do Rap cresceu perto da Favela Portuária, no Guarujá. Em 1996, foi preso pela primeira vez, aos 19 anos. Razão: tráfico de drogas. Cumpriu pena na antiga Casa de Detenção, no Carandiru. Solto em 1999, voltou a ser preso em flagrante em 2003. Já chamava a atenção da Delegacia de Investigações de Entorpecentes, de Santos, que o indiciou em dois inquéritos nos anos seguintes.
Foi nessa nova prisão, segundo a Inteligência Policial, que André foi batizado pelo PCC, em 2005, dentro da Penitenciária de São Vicente. Foi solto em 2006, preso em 2007 e libertado em 2008.
Em liberdade, André passou a compor músicas. Começou com raps elogiando a "vida loka", a cena do crime e a lei dos criminosos contra a "opressão do sistema”. Dizia ser "um guerreiro armado e perigoso", uma "mente criminosa da legião do mal", um vaso ruim de quebrar, sempre pronto para enfrentar os "gambé" (policiais). O traficante ganhou fama e passou a promover bailes funks.
Assim ia a vida de músico de André, até que, em 2012, tudo começou a mudar. Seus conhecimentos com os trabalhadores do porto de Santos levaram Fuminho e Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, a convidá-lo a integrar a estrutura do Tomate, que eles estavam montando.
Em pouco tempo, o tráfico internacional ia deixar os homens do Tomate milionários. Cabelo Duro comprou uma cobertura duplex de 559 m² no Tatuapé, no valor de R$ 3 milhões. André do Rap comprou uma lancha de R$ 6 milhões, um helicóptero de R$ 7 milhões e um Porsche. Segundo a Inteligência da Polícia, eles se enriqueceram usando a rede do PCC para fins particulares: aviões, rotas da facção e obtiveram o direito de comprar droga pelo preço e prazo de pagamento generosos oferecidos ao grupo pelos produtores de cocaína na Bolívia, Paraguai e Peru. Metade da drogaficava com eles e não entrava dinheiro extra no caixa do PCC.
Quando foi solto, Rogério de Simone, o Gegê do Mangue, então terceiro homem da hierarquia da facção, recebeu a missão da cúpula do PCC de fiscalizar os negócios. Gegê sentiu cheiro de queimado no setor do Tomate e resolveu enquadrar Fuminho, Cabelo Duro e André do Rap, que já movimentavam R$ 800 milhões por ano. Gegê proibiu que a estrutura da facção fosse usada para fins particulares.
A disputa levaria a um sangrento acerto de contas. Cabelo Duro executou Gegê do Mangue e Fabiano de Souza, o Paca, líder histórico do PCC. A morte dos dois provocou um terremoto na facção. Fuminho, Cabelo Duro e André do Rap tiveram suas sentenças de morte decretadas. Cabelo Duro seria morto uma semana depois, fuzilado em Tatuapé. Fuminho e André do Rap se esconderam até convencer o PCC de que Gegê era quem estava roubando a facção. A sentença de morte foi suspensa e ambos voltaram a atuar sem serem fiscalizados.
Polícia crê que ‘barão da droga’ esteja na Bolívia
Quando foi para o Dope, em 2019, o delegado Fabio Pinheiro Lopes trouxe do Deic o fio da meada que o levaria a André do Rap. Tratava-se da compra de uma lancha por R$ 6 milhões. A polícia sabia que André faria contato por telefone para pedir que a lancha estivesse pronta quando fosse para Angra do Reis. E assim foi. Quando o bandido ligou, os policiais deduziram que André estaria na mansão alugada por R$ 20 mil e o prenderam.
Com o traficante, os policiais apreenderam dois helicópteros. É que André e seus principais colegas se movimentavam com avião ou helicóptero para se manterem longe da polícia. Fuminho, por exemplo, usava seu avião particular quando viajava do Brasil para Moçambique, onde tinha negócios com o governo — uma de suas empresas produzia asfalto para o poder público.
Era de Moçambique, África, que Fuminho e André do Rap preparavam o segundo maior passo da história do PCC. Eles queriam construir uma rede de distribuição de droga na Europa para se verem livres do pedágio cobrado pela Ndrangheta e a máfia sérvia: 40% da droga enviada pelo PCC fica nas mãos dos mafiosos europeus.
Assim, André foi morar na Holanda e em Portugal para estabelecer contatos, antes de ser preso, em 2019. Com a prisão de André, Fuminho assumiu a tarefa de construir uma nova rota para pôr a cocaína na Europa (35 mil euros o quilo) e abrir outra, para a Ásia, onde o quilo da droga chega a valer US$ 100 mil. É essa a tarefa que André do Rap deve retomar agora. Ele dizia aos colegas de cela que não ficaria preso até o Natal. Tinha razão. Ao deixar o presídio sábado passado, foi de carro com o advogado até Maringá, onde um avião o aguardava.
Em um primeiro momento, os investigadores acreditaram que o bandido foi para o Paraguai, mas quem conhece de perto o xadrez da fronteira garante que André do Rap não vai se expor ao risco de permanecer no país vizinho, pois em um ano, três grandes traficantes do PCC foram presos lá. Os investigadores apostam que André deve se esconder na Bolívia, onde a instabilidade política favoreceria seus negócios. O barão da droga está tateando o terreno. E é atrás de um descuido dele que a polícia aposta suas fichas para tentar mandá-lo de volta para a cadeia.

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