Publicado 18/10/2020 - 09h00 - Atualizado 17/10/2020 - 15h25

Por Daniela Nucci e Kátia Camargo

Equipe de profissionais do Hospital Vera Cruz Casa de Saúde diante da escadaria da unidade hospitalar que atende pacientes de Covid-19, em Campinas

Divulgação

Equipe de profissionais do Hospital Vera Cruz Casa de Saúde diante da escadaria da unidade hospitalar que atende pacientes de Covid-19, em Campinas

A rápida disseminação do novo coronavírus pelo mundo pegou os profissionais da saúde de surpresa. Desconhecido e altamente contagioso, o vírus, em sete meses, fez 1.279 vítimas fatais em Campinas e infectou 35.596 pessoas até a última quinta-feira. Desde março, os profissionais da saúde se desdobram para cuidar de pacientes de média e alta gravidade nos hospitais sobrecarregados e, de início, despreparados para dar conta de uma demanda intensa e muito acima da capacidade de atendimento das unidades hospitalares, que tiveram de correr para ampliar sua infraestrutura rapidamente.
Mais do que nunca, os médicos, no front da batalha, com o apoio de toda sua equipe, foram testados ao limite para salvar vidas e tiveram sua rotina alterada drasticamente. Encarar o medo do contágio, atuar na linha de frente contra um inimigo invisível, tendo em muitos casos de se afastar da família e amigos, foram os maiores desafios de suas carreiras. Por tudo isso, os doutores e as equipes de enfermeiros, técnicos de enfermagem e fisioterapeutas, entre outros, passaram à condição de heróis do ano a quem a sociedade toda tem demonstrado gratidão. Três deles relatam o desafio que enfrentaram e o que sentiram nesses meses de pandemia.
Angústias e alegrias
Mesmo sendo do grupo de risco, em virtude da diabetes, o médico infectologista e coordenador de assistência do Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Plinio Trabasso, de 57 anos, encara o medo na linha de frente do combate à doença, diariamente. “Todos ficamos com medo de pegar o coronavírus. A gente se protege com os equipamentos de segurança, mas ficamos apreensivos. Tive colega que faleceu da Covid-19. Têm médicos e enfermeiros que ficaram doentes. Sou infectologista e tenho que confiar na tecnologia, mas fico apreensivo”, revela Trabrasso. “Sou do grupo de risco, assim como meus três irmãos mais velhos. Fico muito aflito porque não posso ficar perto deles e sempre recomendo para não ficarem expostos e falo dos cuidados contra o vírus”, comenta.
Casado com uma médica nefrologista, Trabasso divide com ela as angústias e alegrias do dia a dia do hospital. “Moramos num prédio e só pode subir o elevador por família. Até agora estamos bem e trocamos nossas experiências, às vezes boas, com as recuperações dos pacientes, e outras mais tristes”, diz o médico. Nos últimos dois meses, com a redução gradativa do número de casos no hospital, a apreensão diminui e serve de alento aos profissionais. Porém, não se pode descuidar. “Apesar de ter ultrapassado essa fase mais crítica, não podemos ficar distante da realidade e o ano que vem teremos de novo. Temos que ter leitos reservados para pacientes da Covid-19, até que surja a vacina para controle eficaz. Estamos vencendo a batalha, mas a guerra ainda não acabou”, completa.
Para Trabasso, o avanço é graças à ajuda de todos, em especial dos médicos. “Eles foram essenciais para o enfrentamento da pandemia, pois têm a capacidade para fazer os diagnósticos e cuidar dos pacientes. Tivemos a abertura de muitos leitos hospitalares, tanto de enfermaria como de terapia intensiva. Contratamos médicos para vir trabalhar em nosso hospital emergencialmente. Essas pessoas não fugiram do chamamento, mesmo de risco. Esses médicos ouviram esse clamor e ajudaram as pessoas, pacientes a se recuperar de uma doença desconhecida”, diz o infectologista, que faz um alerta. “Estamos na fase verde, mas não significa que agora pode tudo. É necessário manter o distanciamento social e o uso das máscaras em locais públicos. Não estamos totalmente livres da doença na nossa cidade e região”, completa.
Um dia de cada vez
“Sobre a pandemia? Não há rotina!” Essas são as palavras da médica cardiologista e diretora da Unidade de Emergência Referenciada do HC da Unicamp, Ana Paula Beppler, 41 anos. Casada e mãe de três filhos, desde março ela vive um dia de cada vez. “Finaliza o dia e agradeço por estar bem. Chegar em casa e encontrar minha família bem”, diz Ana Paula, que faz um comparativo do início até agora. “A cada perda de paciente, que no começo era mais frequente, o dia ficava mais pesado. Equipe murchava. Mas tinha que estar de cabeça erguida e disposta para o próximo paciente grave que chegasse. Já passamos pela fase crítica da pandemia, rezo para que não ocorra uma segunda onda. Todos estão muito cansados”, comenta.
Quando os números da pandemia estavam em ascensão, a opção foi afastar da família. “Fiquei reclusa durante um tempo, para evitar expô-los a esse risco. Mas o dia a dia já era tão pesado que ao término de um mês, voltei para casa, mas ainda assim dormia separado do meu marido e evitava o contato físico prolongado com meus filhos”, relata a médica, que pontua os melhores e piores momentos. “É extremamente prazeroso ver um paciente indo de alta do hospital bem. Bem de verdade. Pesa quando ele apenas sai vivo, ou quando, obviamente sai sem vida. “Ainda tenho receio das coisas voltarem a piorar e não termos mais forças para atuar igual foi no começo; estamos nessa batalha desde março”, pondera.
“Nessa pandemia foi quando pudemos enxergar o fato de que o médico sozinho não faz chuva. Quanto melhor a equipe multidisciplinar, melhor é o atendimento ao paciente e para sua família. Adoro ser médica. Essa pandemia testou minha escolha. Mas também graças ao fato de ser médica que levo o sustento para a minha família. Graças a minha escolha profissional que sigo em frente com a cabeça erguida; sabendo que tive e tenho excelentes mestres, uma equipe espetacular e uma família que forma a minha base mais firme possível”, comenta Ana Paula. “Todos são muito importantes”, finaliza.
Susto e gratidão
O coordenador de pós-venda Guilherme Nucci Fonseca e a família passaram por momentos de angústia após todos descobrirem que estavam contaminados pelo novo coronavírus, em julho. Casado com a confeiteira Michele Cristina Fenerich Fonseca, com quem tem os filhos Caetano, de 5 anos, e Romeu, de 2 anos , o coordenador precisou ficar internado por um noite, no Hospital da PUC-Campinas, com a muita falta de ar, enquanto a esposa e os filhos se recuperaram em casa.
“Eu e minha esposa perdemos o olfato, o paladar, tivemos febre alta e sentimos falta de ar, porém meu caso foi pior. As crianças tiveram febre leve. Fui muito bem recebido quando cheguei no hospital. Após realizar a tomografia, já tinha lesões no pulmão. Porém, não podia deixar minha esposa sozinha em casa com meus filhos. O médico me tratou muito bem e com todos os cuidados. Disse que se sentisse um desconforto muito forte era pra voltar. Mas aguentamos fortes e unidos em casa”, disse Fonseca.
“Foi uma semana horrível. Poupávamos um para cuidar das crianças porque não tinha com quem deixá-los. Compramos um oxímetro para ficar medindo nosso oxigênio e, se baixasse, teríamos que correr. O pico foi uma semana, foi bem ruim. Quando precisei ir ao hospital com as crianças, os médicos e a equipe de plantão tiveram um cuidado especial com a gente e os médicos foram bem atenciosos. Eles são realmente especiais”, diz Michele.

Escrito por:

Daniela Nucci e Kátia Camargo