Publicado 18/10/2020 - 17h19 - Atualizado 18/10/2020 - 17h19

Por Delma Medeiros

Da janela de seu apartamento, fotógrafo registra flagrantes de seus vizinhos: isolamento obrigatório exigiu de todos criatividade e inspiração para manter, da melhor forma possível, o contato com o mundo exterior, visto das janelas

Ricardo Luis/Divulgação

Da janela de seu apartamento, fotógrafo registra flagrantes de seus vizinhos: isolamento obrigatório exigiu de todos criatividade e inspiração para manter, da melhor forma possível, o contato com o mundo exterior, visto das janelas

Autor da série Coleção das Coisas, publicada em plataformas digitais, o professor de arquitetura e fotógrafo Ricardo Luis, catarinense radicado há 16 anos em São Paulo, acaba de lançar mais um trabalho, desta vez com o diferencial resultante da pandemia de novo coronavirus. Diante da situação de exceção que vivemos, criou a série Das Coisas que São Vistas em Isolamento, produzida durante a quarentena obrigatória na cidade de São Paulo.
“Decidimos produzir uma nova edição da Coleção das Coisas. Mas dessa vez teve que ser diferente, pois o momento é peculiar, extraordinário. Não faz sentido agora uma edição como as anteriores, que vinham em trios, num volume, numa ‘aglomeração’. A perspectiva do isolamento pede uma edição isolada”, explica Ricardo Luis. Nasceu assim, Das Coisas que São Vistas em Isolamento.
Ele conta que a ideia era trabalhar numa produção de três novos títulos em 2020, mas com a pandemia se sentiu privado de estar na rua e encontrou no registro desse cotidiano "em isolamento" uma forma de continuar registrando o mundo. “A lista surgiu exatamente para suprir essa necessidade. No começo eu até estava pensando em registar o vazio das ruas, mas achei que eu não deveria estar lá, na rua... seria quase um ato político, entende? Como registrar considerando o #ficaemcasa se eu estaria saindo de casa”, comenta. “Assim mudei o foco e optei por registrar imagens dos vizinhos do apartamento onde moro, no bairro Bela Vista, região central de São Paulo”. Luis mora no prédio Viadutos, que tem uma das faces para a Rua Dona Maria Paula.
“Sou um colecionador, um fazedor de listas. Coleções e listas de coisas. Coisas que eu olho, coisas que me olham, me interpelam, me constituem. Mas sou também um caminhante urbano. A cidade como lugar de olhar no olho do outro, de constituir-se a partir do olhar do outro. Dessas investigações já saíram seis livros da Coleção das Coisas, organizados em dois volumes. Mas subitamente nos deparamos com uma pandemia sanitária global. A Covid-19 chega ao Brasil e escolhemos, como forma de tentar "achatar a curva", a quarentena e o isolamento social, o #ficaemcasa.” As coleções anteriores podem ser conferidas nos sites: http://www.catarse.me/colecaodascoisas e http://www.catarse.me/colecaodascoisasvol2.
“Como sou professor universitário, minhas aulas continuaram funcionando em modo remoto, então me debruçava na janela para observar e registrar o cotidiano nos intervalos das aulas, nos momentos de "tédio" durante o confinamento. Mas era uma rotina meio livre. Dependia muito do tempo, do clima, da luz, das coisas vistas acontecerem ou não, mas sempre tentei manter um ritmo de registros, capturando o que fosse interessante e que pudesse compor uma narrativa com o conjunto”, conta o fotógrafo. A única regra que ele se impôs foi selecionar de todos os registros, três imagens para serem postadas no instagram. “Também decidi que o projeto deveria terminar quando a quarentena terminasse (o que aconteceu quando a prefeitura decretou a flexibilização e reabertura dos bares e restaurantes no dia 6 de julho). Com isso, foram 111 dias de projeto e postadas ao todo 333 imagens que acabaram compondo a lista #dascoisasquesãovistasemisolamento”.
Ele cita que, em isolamento, olhando pela janela da sala do pequeno apartamento, avista a cidade e, nela, não mais os outros, mas suas janelas. “Troca-se o olhar no olho do outro pelo olhar na janela do outro. Aparece aí uma possibilidade de retomar os afetos constituintes típicos do espaço da cidade. Me debrucei sobre essa nova possibilidade e me reconheço no outro pela janela, dele e minha”, coloca. “Isolado, mirei e registrei esse novo cotidiano. Anotei o cotidiano do outro, que também é meu. Fiz novamente uma lista, isolada, das coisas que são vistas em isolamento.”
No total, ele produziu 172 imagens, que estão disponíveis na plataforma da Catarse e trazem seus vizinhos tomando sol, curtindo seus animais ou olhando o mundo pelas janelas.
Como essa é uma edição isolada da Coleção das Coisas, seu formato também é diferente. Ao invés do foto-livro encadernado com as 33 fotografias selecionadas das respectivas listas, esta edição se configura como um Kit: Um estojo com 40 fotografias da série impressos em cartões (tamanho 15 x 19 cm) soltos para serem visualizados e organizados (ou bagunçados) de infinitas maneiras. “Como os dias dessa nossa quarentena, são 40 fotos pra "homenagear" a 40ena, claro”.
Imagens podem ser conferidas no Instagram
O exemplar do livro-estojo, um registro histórico do cotidiano nesses tempos tão delicados da pandemia da Covid-19, podem ser adquiridos diretamente com Ricardo Luis pelo Instagram (@por.onde.o.homem.anda), ou nas lojas Banca Tatuí e LovelyHouse casa de livros. Custa R$ 40,00 o exemplar. “Produzimos uma tiragem de 200, e atualmente estamos com um estoque de cerca de 30 exemplares.”
Luis informa que todas as 333 imagens estão publicadas no seu instagram (@por.onde.o.homem.anda), com a #. Dessas 333, ele selecionou 80 imagens que podem ser reproduzidas em ampliações, modelo fine art, de acordo com o interesse das pessoas. O valor varia conforme o tamanho da ampliação - uma imagem em formato 20x30, por exemplo, sai em torno de R$ 60,00.
A escolha e curadoria das 40 imagens para compor o projeto foram feitas em conjunto com a fotógrafa e amiga Ana Paula Oehler. “Analisamos as 333 imagens e decidimos por selecionar uma diversidade de cenas/coisas vistas que remetessem diretamente a esse momento de cotidiano em isolamento, mas que também tivessem alguma ligação formal, estética, compositiva com o conjunto para compor uma unidade interessante dentro do livro-estojo.” Ele cita ainda que todas as pessoas idetificáveis nas fotos autorizaram o uso da imagem.
A curadoria do projeto ficou a cargo da produtora cultural Ana Paula Oehler (@anaoehler), o tratamento das imagens nas mãos de José Fujocka (@fujocka) e a produção dos vídeos de divulgação novamente com Gustavo Winther (@gowinther).

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Delma Medeiros