Publicado 18/10/2020 - 09h09 - Atualizado 18/10/2020 - 09h09

Por


Busco escrever uma palavra. Qualquer palavra. E tento lembrar uma que está esquecida. E abro velhas malas memoriais, remexo algumas sacolas, remexo o lixo reciclável e vou olhar o lixão da esquina. A palavra desapareceu. E volto para casa e sento na frente do computador para contar uma triste aventura. Perdi uma palavra em algum lugar e não faço a menor ideia onde.
Qualquer palavra é um bem que não se deve perder. Perde-se dinheiro, oportunidades de negócio, chance de emprego ou um grande amor — ou mesmo que seja pequeno, pois amor é. Perdemos a hora do trem, do ônibus, do jantar com a família, do presente ao afilhado, e assim vamos nos perdendo em tantas perdas.
Eu perdi uma palavra e um País. Os bolsos estão intactos, bem costurados, mas deixei um País em algum lugar que não me lembro. E com ele deve estar a palavra que ando procurando. E abro livros, jornais, a janela da varanda, busco nas nuvens uma notícia de palavra, de um País perdido. E passa um urubu voando longe e bem mais longe a varanda da casa dos meus pais, onde me deitava depois do almoço para imaginar desenhos nas nuvens.
O ladrilho era fresco e assim adormecia por um tempo que me cabia. Depois a mãe me avisava que era hora de fazer a lição da escola e, é claro, a lição da casa, varrer o quintal, o jardim, e catar os galhos secos do velho pessegueiro no corredor lateral. E tratar de dar milho às galinhas no fundo quintal.
Tudo era muito simples e apenas simples. Nada se complicava. E tudo era dito sem cochicho. Apenas dito. E o serviço era feito pois sem ele não tinha campinho de futebol. E a bola perdida na linha do trem era achada por quem a chutou. E tudo era paciência e apenas paciência. E a bola era achada e a pelada recomeçava. Mas a palavra que estou buscando está perdida. E vou atrás dos trilhos da Maria Fumaça, das touceiras de capim gordura, do capim navalha, dos espinheiros de joá... e a palavra perdida está em algum lugar das ervas daninhas que bem sei ainda desejam enfeiar os meus caminhos.
Mexi na gaveta de minhas velhas meias e a palavra não estava lá. Remexi papéis antigos e a palavra também não estava lá. Tentei até fazer uma letra de bolero e a palavra não apareceu. Lembrei de um poema de Alex Polari de Alverga e liguei o rádio à procura de notícias tuas, e a palavra não deu notícia. E assim fiquei perdido como o velho companheiro Polari, perdido em sua cela política, e eu do outro lado levando uma comida. E desaparecemos de nós mesmos, ele para um lado do perdão e eu não perdoando os torturadores, mais aqueles que maltrataram um poeta.
Não há perdão para quem bate num poeta. Nem o pior dos demônios pode admitir tamanha afronta, pois são os poetas que contestam quaisquer forças universais, inclusive e principalmente o filosófico fogo dos infernos. E rezo para que cada um tenha uma oração para espantar seus próprios demônios — e eles são tantos e tantos que habitam a alma de cada um de nossos neurônios — e Deus apenas nos ensina a ter paciência e orar por todos nós.
Faço um ligeiro passeio pelas minhas ruas interiores e descubro um favo de mel na marquise de um prédio. E uma abelha vem pousar no meu ombro memorial. E a palavra perdida é achada. Quem me visita é Jandira, senhora dos favos de mel. E ela chegou meio estabanada e sempre alegre e natural. E conta que está indo embora para algum lugar do Universo. Não diz qual e eu não pergunto. Mas bem sei que ela está seguindo para um lugar que ela bem merece estar. E assim me acalmo, visto a minha roupa de caminhar e vou andar pela simpática praça da Igreja São Paulo. Achei a minha palavra perdida, que, aliás, estava — e estará — sempre guardada nos favos da minha mão.
Bom dia, Jandira.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico.

Escrito por: