Publicado 15/10/2020 - 07h03 - Atualizado 15/10/2020 - 07h03

Por


Plantei algumas árvores pela vida. E a primeira foi em uma Primavera no quintal da Escola João Lourenço Rodrigues, no Cambuí, privilégio por ter sido o aluno mais comportado daquele ano. E o Tuca, meu melhor amigo, foi quem abriu a cova da pequenina muda de ipê rosa. E juntos aterramos a muda e a regamos. E assim seguimos a vida vendo a nossa árvore florescer. Ela já tinha quase um metro de altura quando terminamos o quarto ano primário. E lá fomos estudar na Escola Municipal Adalberto Nascimento – que não tinha quintal e o recreio era feito de cimento. Tinha um pequeno campinho de futebol que não se comparava com os campinhos que já tínhamos campinado pelo Taquaral. E a vida seguiu e os anos chegaram de paixão, em quermesses na Igreja Nossa Senhora de Fátima, cuja festa acontecia em um imenso terreno ao lado da igreja. E teve uma quermesse em que o Tuca não apareceu. Morreu atropelado por um carro maluco, na Rua Paula Bueno.
Os mais velhos não levaram os filhos para se despedirem do amigo, que naqueles tempos tudo se fazia para evitar que crianças tivessem contato com a morte. E assim não vi mais o Tuca. Nunca mais brincamos de mocinho e bandido, nunca mais chutamos uma bola no campinho ou descemos a ladeira da Rua Vilagelin Neto com nossos carrinhos de rolimã. E acabou ali os nossos sonhos de viajar para São Paulo em uma carona na Maria Fumaça. Nunca mais joguei futebol de botão no ladrilho do alpendre de sua enorme casa. Nada mais fazia sentido para seguir em frente e enfrentar os marmanjos da escola que queriam pegar nossos lanches. Simplesmente eu entregava o meu lanche de pão com ovo e encostava a minha falta de apetite na trave do campinho. E aí meu pai resolveu me matricular no Colégio Técnico de Contabilidade Bento Quirino. Mas a minha vontade era virar contador de histórias e os livros de contabilidade só tinham haver e dever. E assim fui matriculado no Ginásio Estadual do Taquaral, lá nos baixios da favela Furazoio. Anos depois a Escola Adalberto Nascimento virou o Ginásio Estadual Ataliba Nogueira e fomos todos transferidos para lá, com os mesmos professores, bedéis e diretor – Clóvis Pansani.
Era bem mais perto das nossas casas, mas, ainda muito longe dos nossos sonhos. Nunca a Shirley dançou comigo nas matinês do Centro de Puericultura da Igreja de Fátima – local onde o Padre Milton Santana fundou a primeira sala de Alcoólicos Anônimos de Campinas. E lá se vão quase sessenta anos de história. E a Shirley fugiu de casa na boleia de um caminhoneiro. E como a felicidade não manda recado é certo que ela ainda segue feliz ao lado do seu companheiro.
O armazém do Seu Furian fechou as três portas na esquina das ruas Paula Bueno e José Vilagelin Neto. Era nele que a molecada comprava bolinha de gude, papel de seda colorida e balas futebolino, que vinha com figurinhas de jogadores de futebol. O álbum era de graça e quem o completava ganhava uma bola de capotão. Nunca soube de um ganhador. Mas a gente trocava figurinhas, jogava bafinho e vibrava quando alguma bala vinha com uma figurinha carimbada – a mais disputada era a do Ademir da Guia, o maior meia-armador do futebol brasileiro, até hoje. O segundo, acho eu, foi o Dicá – que apareceu vinte anos depois; e que até hoje está carimbado nas minhas retinas.
Aos domingos, minha mãe me mandava avisar o pai que o almoço estava quase pronto. Eu subia a ladeira Vilagelin Neto e meu pai estava lá, conversando com seus amigos, discutindo se o presidente Getúlio Vargas tinha se matado ou sido matado. Meu pai comprava algumas balas futebolino e me dava uma sacola com três garrafas de refrigerante Vanucci e uma de Malzibier – que a minha mãe tomava pra fortalecer o leite materno do próximo filho...
Naquele tempo não tinha nada além de sonhar em um colchão de palha.
Bom dia.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico.

Escrito por: