Publicado 11/10/2020 - 09h47 - Atualizado 11/10/2020 - 09h47

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Vou assim, envergonhado, levando o saco de lixo para a lixeira do prédio. Descartável e orgânico. Os descartáveis são os que mais me envergonham. São dezenas de pequenas embalagens que nos chegam da padaria, farmácia e da simpática quitanda da Rua Sacramento. Isso sem contar as embalagens de papelão nas quais os supermercados acondicionam as sacolas que guardam frutas, produtos de higiene, de limpeza e tantas outras coisas. Tudo isso tem de ser higienizado e ocupa um bom espaço da lavanderia. E lá ficam por pelo menos três dias até serem descartados na lixeira do prédio. E é isso que me mata de pandemista vergonha. Ou consumista.
Tenho de consumir para me alimentar, me lavar, e outras coisas que o raro leitor bem sabe, pois também é um escravo do consumo banal. E assim nos perdoamos e seguimos consumindo com a santa desculpa do consumismo que faz crescer os negócios da nação, que gera empregos, renda e impostos que sustentam o SUS, as farmácias que oferecem remédios gratuitos para hipertensos e diabéticos. Grande presente, hein?
Estou cansado de pandemia? É claro. E quem não está? E quem não está ou é doido varrido ou um doido bolsonarista. O que dá na mesma. Não quero entrar em polêmica política; mesmo porque não temos mais direito ao contraditório. O que vale é o ofício federal e que a gentalha que se aguente como puder. E não sou gente de aceitar decisões de idiotas e muito menos de achar que tudo se resolve com uma caneta. E eis aí o caso do futuro ministro do Supremo Tribunal Federal que mentiu no seu currículo, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro. Kassio Marques admitiu ao senador Randolfe Rodrigues que jamais fez pós-graduação na Universidad de La Coruña, Espanha, assim como faz um moleque que bebeu o vinho da sacristia. Mas é bom salientar que tal confissão só aconteceu após a universidade espanhola deixar claro que nunca ofereceu o curso citado pelo desembargador Kassio Nunes, deixando claro que ele foi aluno apenas de um curso com duração de cinco dias, em 2014. E a mentira segue o seu rabo: a dissertação de mestrado que o citado desembargador ofereceu para a Universidade Autônoma de Lisboa, em 2015, tem muitos indícios de plágio: ele até mesmo copiou os erros digitais do advogado Saul Tourinho. E a vergonha não aparece no currículo desse provavelmente futuro ministro do Supremo Tribunal Federal, cuja indicação é do toma lá, dá cá do presidente Bolsonaro com os líderes do Centrão e diversas outras forças políticas. Com a palavra os senadores da República. E pior que consumir e produzir tanto lixo é ter que aguentar uma gente que não tem currículo honesto para exercer sequer uma profissão de catador de lixo reciclável.
Olho para a lixeira do prédio e tento entender o lixo moral que se arrasta por baixo dos carpetes políticos do Congresso Nacional. E nem ouso pensar no que se esconde nos gabinetes presidenciais. E lembro que preciso ligar à farmácia para pedir uma caixa de Vonal. Ou melhor, duas. Mas nem tudo se perdeu. Por telefone, conversei com o mestre Antônio Contente, senhor armorial de velhas armas de ética e lealdade. Conversa rápida, de bom compromisso de um forte abraço e um Café no Regina. E assim fecho essa prosa envergonhada de consumismo e politicalha de gente que não tem compromisso com a sua própria verdade. É isso. Bom dia.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico

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