Publicado 08/10/2020 - 08h51 - Atualizado 08/10/2020 - 08h51

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Mando-te esta carta em nome do nosso amor. São poucas palavras, bem sei, mas são sinceras e plenas de amor. Sou apenas um apaixonado por ti. E por ti guardo um amor incontido, uma coisa de pisar qualquer pedra de calçada e lembrar de ti, da tua casa, da tua morada, que abrigou tantos filhos, tantos sonhos, tantas estradas, e eles andam por aí, chutando um pedaço de bola, e sempre buscando seus melhores sonhos.
Não vou e nem quero falar de meninos que defenderam a história de tua histórica existência. Não sei o nome de cada um deles, mas bem sei que eles honraram e assim dignificam a tua história.
Ando pela cidade e em cada esquina tem uma encruzilhada de suportar a dor da derrota e o prazer da vitória. Minha linda mulher, Ponte Preta, você caminha em mim. Você é a rima perfeita. Você é o verbo perfeito do que entendo para entender a vida. Você é e sempre será o que é: o melhor prazer para fazer a vida valer a pena; o amor que sempre diz ao companheiro para não desanimar e seguir em frente...
Meu amor, minha linda e maravilhosa Nega Véia, vejo as rosas das floriculturas do Mercadão e em todas elas estão os teus olhos sinceros e ajabuticabados; e tudo o que existe em mim, teus olhos, carne e nervos, é cada grama do campo, os muros; e tudo está em mim; e assim vou levando você dentro do meu coração.
Nega Véia, meu amor, estou sempre por aqui, no Taquaral, ou em qualquer lugar da cidade. Qualquer poste é um ombro teu, onde encosto a minha saudade.
Já faz um bom tempo que não te levo uma flor e nem te convido para jantar um arroz com feijão, couve e uma salada de rúcula temperada ao sal de uma pitada de felicidade.
Nega Véia, meu amor, a qualquer momento apareço levando um maço de flores caipiras e uma moringa de água e também uma canção de carinho, pra você acordar – e me amar – assim como fazem as estrelas com os bardos das madrugadas.
O tempo é uma coisa infeliz; nada diz, nada condiz. O tempo é apenas uma ilusão à toa, você que me aguarda com o meu violão, com a minha boca aberta de canções, bebendo o suor das madrugadas, matando a sede da minha saudade por você.
Nega Véia, meu amor, estou chegando de onde nunca parti, eu estava apenas ali, bem muito perto de ti, apenas segurando um violão, e um coração, e apenas algumas palavras de amor; e também levando um toco de lápis que você bem sabe, sempre carrego no bolso da calça, além de levar um guardanapo. E é assim que vou levando as tralhas do nosso amor, e é assim que vou, se vai dar samba é outra coisa – e nunca pensei que pudesse entender que o nosso amor pudesse ser um samba que acabou de nascer.
Nega Véia, meu amor, diga aos nossos meninos o ofício que eles têm de cumprir. Nossos meninos têm de aprender que a maior maravilha do mundo é respeitar as cores de uma mulher, e assim respeitando eles entenderão os sonhos de suas mães. É o jogo jogado e quem não entender não vai dar certo na vida e o jogo fica errado, errado, não perde e nem ganha, e tudo se empata, e tudo está consumado.
Talvez você tenha uma certa vontade de sair por aí e intentar alguma coisa capaz de te fazer sorrir, de convencê-la de sair de mãos dadas pelas ruas da nossa cidade, atrás de pequenos jardins suburbanos, de humildes margaridinhas que nascem ao sopé de um pequeno muro.
Andei desaparecido por força desta pandemia que ninguém sabe de onde veio e para onde vai. E eu que não sou curioso de me meter em coisas que não entendo achei melhor me esconder atrás de uma máscara de tricoline quatrocentos fios.
Nega Véia, meu amor, mande um abraço apertado ao moço João Brigati. E diga a ele que sempre muito me honrou vê-lo, alvinegro, e sempre honrando cada tijolo do Majestoso.
Um beijo, Nega Véia.
Bom dia.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico

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