Publicado 04/10/2020 - 08h28 - Atualizado 04/10/2020 - 08h28

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Tal ofício é cumprir com as suas obrigações naturais. E a Natureza é cruel, devo dizer. Ela apenas faz o que lhe é destinado a fazer. Nem bem nem mal. Apenas é por conta de seu ofício. Mas é cruel com o destino de todas as coisas, amoral por sua própria natureza.
As flores dos jardins e calçadas nascem, florescem e fenecem. As flores deveriam durar séculos – mas elas murcham depois de alguns dias. Por quê? Os homens bem poderiam viver mil anos, e assim iriam amar suas companheiras, filhos e trocentos netos...
A Natureza nos dá a vida e, em seguida, nos mata pela sua franca natureza. Por quê? Qual é o sentido da vida proposta pela Natureza? Daqui alguns bilhões de anos o Sol também morrerá em si próprio, envolvendo todos os planetas que giram à sua volta, sem questionamentos morais, sem poesia e música. E tudo o que existiu na face da Terra simplesmente desaparecerá. É a Natureza cruel de tudo o que conhecemos; pois tudo o que vive tem o seu destino fatal.
Mas o homem segue a sina de também se sentir feliz ao lado de seus familiares, amigos, de alguém que ama, de comungar uma cerveja com os amigos de bar, enfim, de tocar a vida pra frente.
Mas é certo que a natureza é cruel. E o saudoso poetinha Vinícius de Moraes, naquele seu Samba da Benção, em parceria com o também saudoso Baden Powel, escreveru: Às vezes quero crer, mas não consigo/ é tudo uma total insensatez/ daí pergunto a Deus: escute, amigo/ se foi pra desfazer por que é que fez? – e assim ficou sem resposta e só deixou uma pequena indagação para ateus e agnósticos discutirem a não existência Divina.
Dizem os entendidos no assunto que o Universo é um velho senhor de alguns bilhões de idade. E isso me faz lembrar a ilustração de um calendário de infância: na folha final do dito calendário tinha um velho ano entregando o novo ano para um garoto. Adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize no ano que vai nascer. Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. E até hoje todos nós cantamos assim. E a Natureza segue o seu destino perenal...
O raro leitor tem toda razão em pensar que estou com falta de assunto. Na mosca!
Um amigo de padaria perguntou, do outro lado da calçada (eu estava caminhando pela manhã), se o Lula sairia candidato à presidência em 2022. Fiz um ok com o polegar direito e segui em frente. E vi uma barata atravessando a calçada e se escafedendo pelo costado do Córrego do Serafim, mais conhecido como a valeta da avenida Orosimbo Maia. As periplanetas são um dos mais antigos seres da Terra e estão por aí assustando senhorinhas e enojando alguns marmanjos. Nos meus tempos ginasianos, fiz uma palestra sobre as baratas. Valia aumento na nota bimestral. Fui na biblioteca municipal e descobri que cientistas tinham colocado baratas dentro da água radioativa de um tanque nuclear e elas não só sobreviveram como também procriaram. E assim passei a respeitar os sobreviventes.
Os humanos só estamos por aqui a menos de 300 mil anos. E isso graças a um meteoro que dizimou os maiores e mais competentes predadores do planeta: os dinossauros. E a cruel Natureza levou mais de duzentos milhões de anos para inventar o bicho homem. E faz um pouco menos de 100 mil anos que o homem aprendeu a usar o fogo e inventou a roda. E deu no que deu. Além do caótico trânsito, das armas de guerra, temos que encarar eleições presidenciais, camerais e senatoriais e, de quebra, escolher o menos incompetente vereador e prefeito.
A natureza é cruel. E amoral. Faz nascer, faz viver e faz morrer. E ela também erra. Basta apenas pensar no corona e em alguns politicalhos que andam zanzando por aí. E perdoe-me, raro leitor, pela falta de assunto.
Bom dia.
Zeza Amaral é jornalista, escritor e músico

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