Publicado 20/10/2020 - 07h43 - Atualizado 20/10/2020 - 07h43

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A encíclica “Fratelli tutti” do papa Francisco excitou alguns e decepcionou e até irritou outros. Para compreender um e outro, é preciso entrar no propósito da encíclica e em seu conteúdo. Assim foi com a primeira encíclica de Francisco, “Lumen fidei”. Mas, pela primeira vez na história, com a encíclica “Laudato sii”, esta tradição foi rompida e não havia um título formal, era dirigido a todos sem nomear ninguém.
“Fratelli tutti” vai mais longe e, embora não o dirija explicitamente a ninguém, repetindo o que era novidade em “Laudato sii”, nas primeiras linhas do documento, especificamente no artigo 6, o papa torna-se mais explícito. Afirma que, embora tenha escrito a encíclica a partir das suas “convicções cristãs”, “procurou fazê-lo de forma que a reflexão se abra ao diálogo com todas as pessoas de boa vontade”.
É uma encíclica o que o torna um documento do mais alto nível dentro do magistério da Igreja e, como tal, deve ser aceito pelos católicos. Isso condiciona totalmente o documento, excluindo deliberadamente qualquer argumento baseado na Escritura ou na Tradição da Igreja, embora seus textos sejam citados mais como referências do que como motivações.
Digamos que o papa quis se colocar no nível de quem não tem fé ou de quem tem outra fé que não a católica para explicar por que todos os seres humanos devem se comportar como irmãos. Isso pode ser estranho e frustrante para alguns, principalmente por se tratar de uma encíclica, mas é como se ele quisesse rejeitar o aborto apelando apenas para a biologia e não para os mandamentos.
Mas, não é verdade que a encíclica não despertou entusiasmo nos não católicos. Os primeiros consideraram “Fratelli tutti” — com ou sem razão — como uma aproximação da Igreja às suas posições — uma fraternidade universal que não se baseia na fé num Criador de tudo e de todos, que é a causa da que São Francisco chama todas as criaturas de “irmãos”.
É verdade que a encíclica não diz que o comunismo é bom, mas quando denuncia e cala sobre isso, os comunistas entenderam que era uma aprovação implícita de sua ideologia. Tudo isso significou que há partes da encíclica que passaram despercebidas e que são muito valiosas. Há parágrafos neles que deveriam e servem para sustentar aquela moral natural de alcance universal, que pode ser o objetivo que o papa buscou com este texto.
“Vós sabeis bem a que atrocidades pode levar a privação da liberdade de consciência e da liberdade religiosa, e como essa ferida deixa a humanidade radicalmente empobrecida, privada de esperança e de ideais”.
“Os cristãos pedem que, em países onde somos minoria, a liberdade seja garantida, assim como a favorecemos para os não cristãos onde eles são minoria". O tempo dirá se esta encíclica produz os frutos da fraternidade universal que o papa quis promover ao escrevê-la. No fundo, estamos todos, do ponto de vista humano, antes do julgamento da história, e do ponto de vista católico, antes do julgamento de Deus.
Manoel Messias Pereira Martins é sacerdote encardinado na Arquidiocese de Campinas e administrador paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, de Nova Aparecida.

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