Publicado 31/10/2020 - 08h38 - Atualizado 31/10/2020 - 15h27

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Campinas, na década de 50 e 60 do século passado, era uma cidade romântica, bonita, de ruas e avenidas bem limpas e cuidadas. A nossa cidade era tida como um modelo e a de melhor qualidade de vida no Brasil, fruto das excelentes e competentes administrações dos prefeitos Antônio Mendonça de Barros, Miguel Vicente Cury e Ruy Hellmeister Novaes.
Dentre as ruas e avenidas, a General Osório, entre a Barão de Jaguara e a Irmã Serafina, destacava-se pelo comércio intenso e pelo elevado número de pessoas que por ela transitavam, moravam e trabalhavam.
Ao lado do lendário Café do Povo – ponto de encontro e referência da cidade – havia o salão do barbeiro Quatá, onde se discutia o dia todo sobre a rivalidade existente entre os torcedores da Ponte Preta e Guarani.
Na rua General Osório, um pouco abaixo da Barão de Jaguara, o edifício Cruzeiro do Sul era o centro comercial e político de Campinas. Nesse local, Ruy Novaes tinha seu escritório, onde incorporava prédios, os comercializa, e fazia política, ao lado do saudoso vereador João Lanaro.
No mesmo andar, os bondosos médicos Roberto Barbosa e Altino Gouveia tinham seus consultórios. Alduíno Zini, contabilista e atuante vereador, ali também tinha o seu local de trabalho. Ruy Rodrigues, cunhado de Ruy Novaes, abrigava lá sua corretora de seguros. Era uma personalidade com espírito benemérito, hoje eternizado não só em uma avenida importante de Campinas, mas também em suas obras, como a Associação Comercial, por exemplo. Foi também o criador e incentivador da Guardinha de Campinas e um dos fundadores da FEAC. Nesse mesmo prédio, os irmãos Antônio, José, Otto e Luiz Leite Carvalhaes possuíam uma concorrida e respeitável banca de advocacia.
No térreo do edifício Cruzeiro do Sul, havia o bar do China, onde a mocidade universitária se reunia em volta de seu carismático dono Hermenegildo Mancine e sua esposa Rosalinda.
Nessa mesma rua, descendo mais um pouco, existia o restaurante Armorial dirigido elegantemente pelo inesquecível Ângelo Lepreri e sua distinta esposa, madame Solange. Esse era o local que a sociedade campineira frequentava, ostentando refinado luxo.
Quase em frente ao Armorial, havia o bazar do Demétrio, simpático libanês, o melhor balconista que eu conheci. Sozinho, ele atendia, ao mesmo tempo, sorridente e com presteza, umas quinze ou mais freguesas, vendendo agulhas, botões, linhas de coser e novelos de lã. Ao lado do Armorial, ficava o salão de beleza Pente de Ouro, comandado pela competente e simpática Margot Araújo, frequentado pelas mais bonitas jovens da sociedade da época.
Nesse cenário, havia uma figura humana interessante: baiano, moreno, de estatura baixa, solícito e educado, merecendo a confiança de todos. Chamava-se Raimundo Nonato.
Raimundo era cambista de jogo do bicho, trabalhando para o Batuta, afamado bicheiro da cidade. Além de recolher o jogo e as apostas, trabalhava ele à noite, fechando as vitrines e apagando as luzes das principais lojas e estabelecimentos comerciais do centro da cidade.
Mas, um dia, os estabelecimentos e as lojas amanheceram com as vitrines descerradas e iluminadas. A cidade ficou perplexa!
Por que o baiano Raimundo não as fechara? Toda a cidade ficou preocupada e, ainda mais, como seu desaparecimento. Ninguém o encontrava!
Mais tarde, o mistério foi desvendado. Um funcionário público estadual aposentado, por intermédio de Raimundo, apostara no macaco, de primeiro ao quinto. Deu macaco na cabeça e o milhar correspondia a uma vultosa soma estimada, em moeda atual, em R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais).
Como era o costume, o cambista Raimundo recebeu do bicheiro Batuta o polpudo prêmio, para repassar ao feliz ganhador.
Todavia, de posse desse valor, Raimundo fez tábua rasa de sua honestidade. Fugiu com o dinheiro e, até hoje, ninguém mais soube dele ou de seu paradeiro.
Daí a cidade ter amanhecido, naquele dia, com as lojas abertas e as vitrines iluminadas!
O bom baiano Raimundo Nonato talvez tenha retornado à Bahia, com status de novo rico, beneficiário do ensinamento: “O crime compensa no Brasil”.
Que o digam os políticos corruptos que chegam mesmo a esconder, nas nádegas e nas cuecas, o dinheiro roubado do generoso povo de nossa pátria!
Jorge Alves de Lima, historiador, escritor, é presidente da Academia Campinense de Letras

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