Publicado 17/10/2020 - 08h34 - Atualizado 17/10/2020 - 08h34

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No ano de 1963, quinto anista do curso de Direito, eu já havia adquirido boa vivência e experiência nas campanhas eleitorais de Ruy Novaes e Antônio Leite Carvalhaes. Naquele ano, fui um dos coordenadores da vitoriosa campanha do Ruy que o levou ao honroso cargo de prefeito municipal de Campinas. No desenrolar do processo eleitoral, testemunhei e presenciei cenas dramáticas, emocionantes e algumas, até mesmo cômicas, dignas de figurar no folclore de nossa cidade, como vocês, distintos leitores e leitoras do Correio Popular, irão perceber na leitura desta crônica. Naquele tempo, Ruy Novaes tinha como oponentes o saudoso José Maria Matosinho, político brilhante e ex-vereador de várias legislaturas, e Mário Rubens Costa, jovem e dinâmico empresário, proprietário do Curtume Firmino Costa. Faltando uns 15 dias para a eleição, Ruy Novaes recebeu um convite para participar de um churrasco do candidato a vereador Antônio Santagatta, popularmente conhecido como Tim, a ser realizado em Paulínia.
Na época, Paulínia era distrito de Campinas, com uma população estimada em 8.500 habitantes, com um pequeno comércio, a igreja, três ou quatro ruas, tendo, porém, uma tradição: muitas vezes, o seu diminuto eleitorado decidia as eleições municipais, inclusive elegendo o seu próprio vereador, o cidadão Amerígio Piva. Lembro-me de que, no dia da festa, uma sexta-feira, Ruy Novaes, não podendo comparecer, pediu a mim e ao dr. Altino Gouveia, médico de saudosa memória, que o representássemos na churrascada do candidato a vereador, Antônio Santagatta, o Tim, conceituado comerciante proprietário de um açougue de vasta clientela no Mercado Municipal. Pelo fato de ter sido picado pela mosca azul, resolveu iniciar-se na vida pública como vereador e, talvez, alçar voo mais alto na política. O Tim era um bom homem, trabalhador, de estatura baixa, vivaz e falante, e muito alegre e sorridente. Paulínia estava profusamente enfeitada com cartazes ilustrados com fotos do Tim. As ruas ostentavam bandeiras e bandeirolas, faixas inseridas nas residências e bares, vários arcos de triunfo nas esquinas, a fazer proselitismo da candidatura do Tim. A banda de música tocava valsas e dobrados vibrantes. A Escola de Samba com bateria, suas mulatas e baianas, fazendo evoluções e requebrando-se sensualmente, levavam a multidão ao delírio. No final da rua principal, situava-se o local da churrascada de carnes nobres como filé mignon , maminha, contrafilé e fraldinha, regadas a chope gelado, servido fartamente e sem economia.
Eu e o dr. Altino esperávamos o candidato a vereador bem em frente ao local da churrascada, no término da rua principal. Todavia, o candidato Tim, bem assessorado pelos seus cabos eleitorais, demorava a chegar, criando assim um verdadeiro suspense na feliz população paulinense. Eis que de repente, o intenso foguetório subiu aos céus, anunciando a chegada do Tim. Vinha ele em um carro aberto, de pé, abraçando uma corbeille de flores com o braço esquerdo. A população foi ao delírio, atirando-lhe flores, ao longo do trajeto gritando: Tim! Tim! Tim…, ao som da bateria da escola de samba, e do tilintar dos pratos da banda musical, e do espocar intenso dos foguetes! No decorrer do churrasco, conversei com o Tim. Ele estava eufórico, felicíssimo mesmo, festejando com antecipação a forte votação que lhe seria dada pela população tão acolhedora de Paulínia.
Eu e o dr. Altino regressamos e fomos encontrar Ruy Novaes e Antônio Leite Carvalhaes, jantando no inesquecível restaurante Armorial, ao lado de José Leone Neto e João Lanaro, esse último também candidato a vereador. Relatamos o acontecido, manifestando-lhes a nossa impressão de que o Tim estava, indubitavelmente, eleito vereador. Ruy e Carvalhaes ouviram-nos atentos, com um sorriso enigmático nos lábios. Ruy Novaes elegeu-se com folga como prefeito de Campinas, e João Lanaro alçou-se ao cargo de vereador. O nosso estimado Tim recebeu do povo de Paulínia, que tanto o aplaudira e o prestigiara, uma votação ridícula, constrangedora e fraca de apenas 10 votos! Passado certo tempo, João Lanaro, que era uma pessoa de coração maravilhoso, de gênio alegre e brincalhão, telefonou ao Tim, disfarçando a voz: — Tim, aqui é um morador de Paulínia, e quero saber do senhor quando haverá outro churrasco? Tim, sem perder a calma, respondeu: — Meu caro amigo, brevemente, quero fazer outra churrascada, muito melhor que a outra, bem caprichada e saborosa, por que eu mesmo quero temperar a carne, com estricnina, seu filho da p…! Assim encerrou-se prematuramente, a carreira política do nosso simpático Tim, que continuou seu trabalho honrado de açougueiro no Mercado Municipal, atendendo com capricho sua imensa e fiel clientela. Agora, neste momento eleitoral, a história do Tim mostra-se como uma séria advertência, orientação e alerta aos atuais candidatos a vereador e a prefeito de nossa cidade amada.
Jorge Alves de Lima, historiador e escritor, é presidente da Academia Campinense de Letras (ACL).
 
 

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