Publicado 24/10/2020 - 06h09 - Atualizado 24/10/2020 - 06h09

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Há cerca de meio século, os valores da moral judaico-cristã foram intensamente questionados pelos movimentos transformadores do que se convencionou chamar de 'Revolução Sexual'.
A pílula anticoncepcional foi o mais impactante e decisivo fato revolucionário, pois ampliou significativamente o aproveitamento do sexo. Isto é, a relação heterossexual poderia ser um ato dedicado exclusivamente ao prazer, descompromissado com a reprodução.
A transformação principal foi na sexualidade feminina, pois rompeu a linha machista e os privilégios masculinos. Os homens já viviam dois modelos de sexo: o reprodutivo, com as esposas, e o descomprometido, com prostitutas e parceiras que ofereciam complacência infecunda.
A partir da pílula, as mulheres teriam as mesmas oportunidades dos homens. Isso foi um solavanco fenomenal na teoria, mas a prática não mantém a proporção.
Nos relacionamentos casuais de hoje, mulheres e homens estão em circunstâncias equilibradas, com uma equivalência que desafia os padrões machistas antigos.
E nas relações estáveis, casamentos, namoros firmes e longos?
A escritora e psicóloga Regina Navarro Lins, há mais de uma década, vem apontando as transformações amorosas e sexuais nos casais da pós-modernidade.
Há 08 anos, aqui em Campinas, ela deu uma palestra, em evento do GEA (Grupo de Estudos do Amor), quando já anunciava a perspectiva de namoros e casamentos abertos.
Em participações do programa 'Amor e Sexo', da Rede Globo, exibido até o ano passado, ela também debatia a temática instigante e complexa da sexualidade.
No início deste mês, ela lançou o livro Amor na Vitrine, e vem comentando, em suas entrevistas, que a monogamia está com os dias contados.
Tal panorama é polêmico, implicando ações e reações diversas, alternando censura, curiosidade e desconforto.
Para interessados em renunciar à monogamia, as matérias da Navarro Lins e um livro de Eric Anderson (The Monogamy Gap) são essenciais, bem como: 1) entender bem a traição que forma triângulo, ou seja, quando se busca fora da relação o que falta no companheiro; 2) rever a idealização romântica.
1) Exemplo de triangulação: esposa tem curso superior, acha que o marido deveria estudar mais. Nada comenta, nunca sugere que ele retome os estudos e arruma um amante pós-graduado. Ela o trai duas vezes: a primeira, porque não o estimula; a segunda, por preencher com outro o que falta nele.
Experiência pessoal não triangulada: o marido está bem no casamento, não pensa em outra mulher. Reencontra uma ex-ficante do ensino médio com quem, na época, quis muito transar, mas não conseguiu. Agora, transa com a amiga, preenchendo algo que falta nele próprio, não na esposa.
2) O amor romântico idealizado demanda que o sujeito seja foco sentimental único e exclusivo, sentindo-se até com direitos de posse sobre o companheiro. Para abrir a relação, cada par terá que renunciar à posse narcisista e ao controle pretensioso sobre o outro.
Joaquim Motta é psiquiatra, sexólogo e coordenador do Grupo de estudos do Amor.

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