Publicado 10/10/2020 - 08h20 - Atualizado 10/10/2020 - 08h20

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No Brasil, o adjetivo 'carente' tem conotação pejorativa, pressupõe pessoa que estaria na mais miserável condição, em plena pobreza, necessitando de tudo, passando fome, sede, desnutrida e adoecida.
Infelizmente, temos realmente no País pessoas na miséria absoluta. E mais desgraçadamente há, em todos os países, quem cultiva a aparofobia, o ódio aos pobres.
O termo 'aparofobia' é neologismo desenvolvido por Adela Cortina, filósofa espanhola que incentiva o debate sobre ética.
Na verdade, como seres humanos, incompletos e incompletáveis, somos sempre carentes.
Ninguém, em boa consciência, seria capaz de negar nossos limites éticos e o 'gap' amoroso em que nos encontramos.
Sofremos com essas dificuldades, especialmente a miséria ética e o amor indigente. Isso esfria e diminui nossas opções.
As escolhas são inversamente proporcionais às carências.
No início da vida, o ser humano é um bebê, absolutamente dependente, carece da mãe ou qualquer pessoa suficientemente amadurecida para dele cuidar. E o mesmo se dará na senescência terminal. À medida que a morte se aproximar, mais se reciclará a dependência.
Quem depende não escolhe. Durante o processo vital, em algumas etapas, é possível até escolher sem depender.
Um adulto, jovem ou maduro, com autonomia razoável, estabilidade profissional, habilidade administrativa e segurança emocional, faz prevalecer as escolhas sobre as carências. No entanto, na maturidade senil, dependerá novamente dos outros.
Quando sente a carência, a criança chora. O adulto, para não se sentir pequeno, grita. O grito disfarça o choro, mas é, a rigor, a mesma coisa...
A independência total equivale à circunstância que os próprios humanos construímos: Deus.
Fizemos a ideia de Deus como o Ser Supremo, de Poder Absoluto, que tudo pode escolher e de nada carece.
A dependência inicial do bebê e a do senescente terminal é total, eles carecem de tudo e nada escolhem. O oposto a isso não pode existir no âmbito humano.
Só mesmo Deus, como as religiões indicam, pode ter carência zero. Afinal, um ser divino, onipotente, onisciente e onipresente está completo, de nada necessita.
Então, as linhas religiosas oferecem uma perspectiva espiritual de alcançar a divindade, algumas até com a ressurreição corporal.
A religião demanda fé para o humano se convencer de que suportará, ao longo da vida, esse desequilíbrio entre carências e escolhas até chegar à imortalidade.
No mundo atual, domínio do Mercado, a maioria dos aproximadamente 8 bilhões de habitantes da Terra tem mais carências do que escolhas. Uma minoria privilegiada, cerca de 20%, tem a ilusão de não ser carente.
O fim da vida, para as religiões, promoveria a inversão dessa dinâmica. O humano mortal se tornaria um ser imortal, divino, sem carências e com todas as escolhas à disposição.
Estamos em plena impregnação virtual, mas podemos nos voltar para a realidade. O caminho religioso é essencialmente virtual, sem volta.
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e coordenador do Grupo de Estudos do Amor.

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