Publicado 21/10/2020 - 08h22 - Atualizado 21/10/2020 - 08h23

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Chegar aos 200 mil mortos pelo novo coronavírus no Brasil é uma questão de tempo. No mundo, na semana passada, chegou-se a um milhão de óbitos pela Covid-19 desde o início da pandemia!
O número de Dunbar é o limite no número de pessoas com as quais alguém mantém relações sociais estáveis, afetivas e conhece dados pessoais significativos. É o número no qual cada pessoa conhece cada membro do grupo e sabe identificar a relação dele com as outras pessoas do grupo. Este número foi estabelecido por pesquisa e referendado por outras e citado em inúmeros trabalhos acadêmicos, especialmente no campo da antropologia.
Proposto por Robin Dunbar, esse número teórico varia entre 100 e 230 pessoas. Vamos tomar a média entre o mínimo e o máximo e trabalhar com 165 pessoas com as quais cada um de nós conhece, se relaciona e sabe quem é, o que faz, tem algum sentimento em relação a ela e que a falta dela, por ausência ou morte afeta significativamente a vida das demais pessoas.
Tomando as 150 mil pessoas que morreram, vezes as 165 pessoas que, em média, sentem a falta delas, teremos, no Brasil, 2,4 milhões chorando a morte de alguém e 165 milhões em prantos no mundo.
Ocorre que, há casos da morte de pessoas que não conhecíamos e soubemos das características delas em vida ou como foi a enfermidade, ou as pessoas que deixaram e nos solidarizamos e, não poucas vezes, choramos pelo desconhecido.
Ocorre que, com a seca, as queimadas e a quantidade de animais que foram dizimados ou feridos com as queimaduras, todos choramos pelo desastre ambiental, aumentando o manancial de lágrimas da pátria.
Não só choramos as mortes humanas, mas também a morte de parte da Amazônia, do Pantanal e de outros biomas vitimados por incêndios, quase todos criminosos.
Sabe-se que há certo nível de sensibilidade nas plantas, que elas podem retribuir o cuidado, como podem se ressentir com os maus-tratos. Se há, como pesquisas têm evidenciado, certo sentimento nas plantas, acredito que posso afirmar o sofrimento das árvores cortadas, queimadas, de toda a vegetação dizimada pelo fogo. Posso falar do sentimento dos animais em pânico com a tragédia que se avizinhava, posso chorar a morte das onças pintadas, capivaras, porcos do mato, jacarés, etc.
De minha parte, chorei na última segunda-feira com a sentença de morte de outros ecossistemas decretada pela resolução trágica e insustentável do Conama, apoiada pela CNA e CNI, capitaneada por um facínora ambiental.
A dor de algo inevitável é menor que a dor de algo que se perde e se podia evitar. Ver mesmo que seja a mãe ou pai morrer depois de longo período de enfermidade, pode até ser reconfortante, ainda que choramos a perda. Mas chorar a perda quando ela poderia ter sido evitada é muito, mas muito mais dolorido. Quantas lágrimas rolaram nas faces de quem teve um filho, pai, mãe, esposo ou esposa perdidos pela falta de leitos, respiradores, remédios? Mortes evitáveis, mas que foram assassinados pela incompetência, incúria e imperícia. Quantos amantes da natureza não choraram ao ver e saber do que acontecia nos ecossistemas devastados pelo fogo?
Somos uma pátria em prantos. A seca não se combate com as águas das nossas lágrimas, mas elas podem regar novos tempos, novas realidades. As lágrimas doloridas e amargas das perdas pessoais e da natureza podem fazer crescer o rio para arrastar para longe o antiministro, para quem o meio ambiente é “só meio ambiente” ou “"ambiente pelo meio”.
Marcos Inhauser é teólogo, pastor da Igreja da Irmandade e educador corporativo.

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