Publicado 28/10/2020 - 08h27 - Atualizado 28/10/2020 - 08h27

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“Levantei as 7 horas. Alegre e contente. Depois que veio os aborrecimentos. Os meus filhos não são sustentados com pão da igreja. Eu enfrento qualquer espécie de trabalho para mantê-los. Não me casei e não estou descontente. Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos socegados”.
Notaram os erros de português? E a emoção do texto, a profundidade das palavras que, dentro de sua singeleza, soam ardentes? Isso também foi percebido? Acredito que sim. Essas linhas foram escritas de madrugada, em cima de um caixote de madeira, à luz mortiça de uma lamparina, por Carolina Maria de Jesus: formaram um diário em vinte cadernos ensebados que, editados em um livro, atravessaram fronteiras: “Quarto de Despejo”. Sucessivas edições o fizeram chegar a mais de cem mil exemplares.
Quem foi Carolina Maria de Jesus? Uma humilde favelada, que nasceu por volta de 1915, viveu num barraco da favela do Canindé, à beira do rio Tietê, em São Paulo, e morreu, ainda pobre, em agosto de 1977. Foi recompensada pela vida depois de realizar o sonho de escrever sua história.
Carolina saia de casa todos os dias, bem cedo, em busca de algo que pudesse gerar algum dinheiro para comer e dar sustento aos seus três filhos pequenos. Corria atrás de papéis aproveitáveis, ferros, latas, pedaços de madeira, qualquer coisa para vender ali mesmo nas vizinhanças. Buscava, em lixos, alimentos desprezados e fazia sopa com ossos que pegava no Matadouro.
Não teve oportunidade de conhecer a linguagem correta, as sintaxes gramaticais e lógicas, mas, a muito custo, aprendeu a ler, e lia tudo o que lhe caía às mãos. Com isso, adquiriu conhecimentos que, num português rústico, possibilitou contar o seu sofrido dia a dia, uma obra de impressionante lirismo e profundidade. Com o auxílio do jornalista Audálio Dantas, surpreso com a força do texto, realizou um sonho: seu livro a tirou da favela e a imortalizou na mídia literária. É um retrato cruel das amarguras dos favelados, que lutam para ter alguma coisa para se tratar, vestir e comer.
Para aqueles que puderam frequentar a escola, adquirir alguma cultura, no entanto, escrever corretamente, sem erros, é um cuidado que não deve ser desprezado nunca. É preciso buscar a perfeição. Apesar de que é um fato todos estarmos sujeitos a esse “pecado”, pois ninguém é infalível: isso acontece também com cronistas e escritores de renome.
E onde ficam figuras como Carolina, sem instrução acadêmica, artífices das letras num universo simples, mas que trazem consigo a genialidade da criação? Elas têm o seu lugar dentro de uma literatura, digamos, primitivista.
Você já observou a riqueza de imagens e poesia contidas nas letras das modas de viola das nossas duplas sertanejas de raiz? As interpretações dos violeiros só poderiam ser do jeito que são, ricas em conteúdo e calor humano. Na música popular, o que seria dos dizeres de Saudosa Maloca e Trem das Onze se interpretadas pelo seu autor, Adoniran Barbosa, em escorreito português? Daria para se cantar Tiro ao Alvo, ao invés de Tiro ao Álvaro? Nunca!
Carolina Kotscho escreveu a história da mãe de Zezé de Camargo, Helena, retratando maravilhosamente a genitora do cantor, na verdade, o sustentáculo até então desconhecido de sua vida, sempre legado ao pai. Mas a base do texto foi construída através de um diário onde Helena conta a sua história: numa linguagem simples e cheia de erros, deixou tudo em cadernos rascunhados a mão. É o material que abre a obra de Carolina Kotscho.
Quem viu o filme “Central do Brasil”, de 1998, dirigido por Walter Salles, ainda deve se lembrar de Dora (Fernanda Montenegro) atrás de uma mesinha na própria Estação da Central no Rio de Janeiro, escrevendo cartas, que pessoas humildes e analfabetas ditavam para ela. Dora floreava um pouco, mas a estrutura desses textos era passada na maneira simples e comovente ditada pelos remetentes. Uma linguagem pura e apaixonante.
Em casos memoráveis como esses, aceita-se, com louvor, as emoções das palavras escritas com erros. São intocáveis. É só lembrarmos da vida e obra de figuras inesquecíveis como Carolina, Helena, Adoniran, dos violeiros do sertão e dos passantes diários da Central do Brasil.
Gustavo Mazzola é jornalista e membro da Academia Campinense de Letras - mazzola@sigmanet.com.br

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