Publicado 24/10/2020 - 06h10 - Atualizado 24/10/2020 - 06h11

Por


Preocupado em escrever um trabalho que abrisse novas perspectivas à compreensão e à interpretação do homem através de uma análise do passado e do ethos da gente brasileira, o sociólogo Gilberto Freyre fez pesquisas, em 1926, na coleção Oliveira Lima de obras raras, na Universidade Católica de Washington, Estados Unidos. Tinha um plano de escrever sobre o Brasil, que foi comunicado somente a Teodoro Sampaio. Nas suas andanças pela África francesa para estudar a cultura negra, encontrou em Dakar, Senegal, negros tão altos que pareciam estar andando de perna de pau. Tal pesquisa o levou a Lisboa em 1931, dando maior atenção ao material que se referisse à mulher e ao escravo, dentro do complexo patriarcal-escravocrata. Ao estudo de fontes encontrado na Biblioteca Nacional de Lisboa e em coleções particulares, como a do historiador João Lúcio de Azevedo, estava nascendo Casa Grande & Senzala. Freyre conta que se refugiava do frio de Lisboa, fazendo pesquisas, estudando no Museu Etnológico e em bibliotecas e aprendendo a lusitanidade dos estratos mais humildes da população. Para sobreviver dava aulas de Inglês.
Em fevereiro de 1931 recebeu um convite para lecionar como professor visitante na Universidade de Stanford, Estados Unidos, cursos livres de Sociologia para estudantes de bacharelado e doutorado. Dotado de amplos recursos dados pela universidade, viajou para aquele país. Na Califórnia, encontrou um campus com alguma paisagem brasileira: com palmeiras tropicais e um sol também quase brasileiro. A biblioteca era rica com valiosa Brasiliana, fruto da abnegação do geólogo e antigo Reitor da Universidade, John Casper Branner, que reunira em seus vários contatos com o Brasil. Para sua felicidade, Freyre encontrou uma completa coleção de documentos parlamentares ingleses relativos não só ao tráfico de escravos, como condições de trabalho servil no Brasil. Foi nesse momento que tomou corpo seu projeto de Casa Grande & Senzala.
Como grande viajante, não quis permanecer na Universidade, preferindo sempre a condição de professor visitante. “Cigano de beca”, foi como ele mesmo uma vez se retratou. Assim, rumou para a Europa onde, em Berlim na Alemanha, fez um estágio com o eminente antropólogo Max Dessoir. Ao regressar ao Brasil, foi decisivo para suas pretensões, o estímulo que recebeu do amigo Rodrigo Franco de Andrade para o seu empreendimento. Fez pesquisas em bibliotecas brasileiras, principalmente na Nacional e no Arquivo Brasileiro. Amealhou um grande material no Rio de Janeiro e foi hóspede por algum tempo de Assis Chateaubriand, e, de certa altura em diante, chegou a se instalar em mesquinhas pensões na Rua Paulo de Frontin. Agora, sem recursos, às vezes, penhorando objetos de valor, recebia auxílio de amigos, entre eles, José Américo de Almeida.
Ao regressar ao Recife, em 1932, entregou-se à tarefa de redigir o livro, em condições difíceis – comendo uma vez por dia e morando só e isolado na casa do irmão Ulysses. Recebia o auxílio de um preto velho chamado Manoel Santana, descendente de escravos que lhe deu amplas informações orais sobre costumes negros. Freyre fez constantes pesquisas de campo, percorrendo as áreas mais antigas das casas-grandes de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Reuniu um vasto material de informações, não só de baronesas do tempo do Império – uma delas, a de Contendas, velhinha ainda lúcida, residente na sua antiga casa-grande – como de antigos escravos. Com seu amigo, o pintor Cícero Dias, estudou a planta de uma casa-grande tendo como modelo o Engenho Noruega. Quando ia ao Rio de Janeiro, costumava observar, em companhia de Sérgio Buarque de Holanda, Heitor Villa-Lobos e Jaime Ovale, candomblés, danças, Carnaval, negros da Praça Onze e do Mangue, para procurar sobrevivências culturais negras. Na Bahia aprendeu segredos afro-brasileiros com o babalorixá Martiniano do Bonfim.
Em 1933, Freyre deu por concluída a redação de Casa Grande & Senzala. Tinha o costume de escrever a mão, apoiado numa tábua. Seus rascunhos eram complicados, exigindo datilógrafos pacientes e cultos. CG&S, por exemplo, teve de ser parcialmente datilografado pelo pintor e escritor Luís Jardim, que na época ainda residia no Recife. Antônio Gonçalves de Melo, futuro historiador e a pesquisadora Anita Paes Barreto foram incumbidos de levar o manuscrito ao Rio de Janeiro. Ao subir do cais para o vapor, Anita tropeçou na escada, quase deixando cair na água o calhamaço. Por sorte foi recolhido. Teria sido perda total de um penoso trabalho de vários anos, pois o autor não fizera cópia, só existiam os originais datilografados.
Rodrigo Franco de Andrade foi encarregado de redigir o contrato com o editor Schimidt para a publicação do livro, mediante o pagamento de 500 mil réis por mês, pela edição da obra. Por fim, acabara a odisseia do livro que teve sua primeira edição nesse ano de 1933, imediatamente sucesso nacional e internacional, comprovado por tantas edições, em cujos prefácios o autor pôde registrar o feedback de suas mensagens.
Duílio Battistoni Filho é membro da Academia Campinense de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas. E-mail: duiliobf@hotmail.com

Escrito por: