Publicado 31/10/2020 - 08h43 - Atualizado 31/10/2020 - 08h43

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No início de 2018, o técnico Fernando Diniz se despediu do Guarani com menos de duas semanas de trabalho, antes mesmo de estrear na Série A2. Ele aceitou um convite para substituir Seedorf no Athletico, clube do qual foi demitido seis meses depois.
Felipe Conceição está há menos de um mês no Brinco de Ouro. Tenta tirar o Guarani de uma situação difícil na Série B, a mesma divisão que Diniz disputaria se tivesse cumprido o contrato que assumiu no final de 2017. Felipe Conceição também recebeu um convite para dirigir um time paranaense na Série A, mas recusou. O Coritiba lhe ofereceu um salário melhor e está na divisão de elite, o que daria visibilidade muito maior ao seu trabalho.
Os cenários são parecidos, mas as decisões foram opostas. Diniz disse sim imediatamente ao Furacão e partiu, deixando o clube que lhe deu uma oportunidade (estava desempregado há seis meses) sem treinador a poucos dias da estreia.
Conceição disse não ao Coxa, que está na zona de rebaixamento, mas tem boas chances de escapar da queda, já que tem apenas três pontos a menos do que o 14º colocado. Para seguir na elite, precisa ser no mínimo o 16º.
Não condeno a decisão de Diniz, mas admiro muito a de Felipe Conceição. Em situações normais, a postura do atual treinador do São Paulo seria condenável, já que rompeu um acordo que havia acabado de assumir. Mas o futebol brasileiro tem suas peculiaridades.
Em que outro país do mundo tantos técnicos são demitidos em apenas um turno da primeira e da segunda divisões? Quantas vezes um treinador é cobrado para apresentar resultados imediatos trabalhando sem a mínima estrutura e com salários atrasados?
Diante dessa triste realidade, é compreensível que Diniz não tenha pensado duas vezes. Muitos clubes adotam postura semelhante.
O fato de o comportamento de quem parte na primeira chance ser "aceitável" não diminui em nada minha admiração por aqueles poucos profissionais do futebol que respeitam os contratos que assinam.
O ambiente no vestiário do Guarani hoje é bem melhor graças à conquista de 10 pontos em quatro rodadas. Nenhum remédio no futebol é tão eficaz quanto a vitória. Mas Conceição certamente ganhou muitos pontos com o elenco ao dizer não ao Coritiba para dar sequência ao trabalho que começou há poucas semanas. Ele não poderia dar a seus atletas exemplo maior de comprometimento.
Felipe Conceição costuma se dirigir à torcida do Guarani no final de suas entrevistas. Sua postura nesse episódio tem mais efeito sobre os bugrinos do que qualquer declaração. Mais do que uma escolha pessoal, foi uma clara atitude de respeito ao Guarani.
Carlo Carcani é coordenador de esportes do Grupo RAC.

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