Publicado 18/10/2020 - 09h47 - Atualizado 18/10/2020 - 09h47

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Ora, amigos, vamos falar a verdade, um homem de muita vivência que diga, mesmo que seja apenas em versos, que tem a boca ainda marcada pelos beijos que recebeu de certa mulher, certamente curtiu um grande amor. E esta perenidade, no papel, que pode depois virar canção, tem dado, à posteridade, grandes testemunhos de amores eternos. E o que é, afinal, um amor eterno? Apenas, amigo, aquele que pode ser cantado como simples tradução de beleza. Dado que guarda, na sua inteireza, o canto e a forma. Prontos sempre para as captações de quem não vê apenas com os olhos do corpo.
Não é só a língua portuguesa que está impregnada de versos de canções compostas para a eternidade. E que podem brotar aos nossos ouvidos de repente, até quando se está numa sala de espera, num saguão de aeroporto, ou mesmo caminhando numa rua qualquer. Certa ocasião, por exemplo, eu estava sentado num banco do jardim Carlos Gomes, a ler jornal numa época em que ainda se lia jornal em praças públicas, quando parou, no meio fio, um carro. O som do veículo estava ligado, até nem muito alto, porém suficiente para que eu escutasse. E logo a frase entrou em mim com a voz do cantor, talvez Nelson Gonçalves, a dizer que o ninho de amor dele estava vazio. Santo Deus, amigos, “ninho d’amor”; pode haver algo tão bom de se ouvir em manhã de sol, num banco de praça? Ali tinha, ante meus ouvidos, um canto de abandono sim, porém a sugerir que, lá atrás, ocorreram instantes de plenitude. Quando o tal ninho, que vazio possibilitou a canção, transbordava de vida.
Quantas pessoas o amigo conhece que já morreram de amor? Como os que dele viveram e vivem são muitos, os que em função da perda feneceram é que conta. Uma vez que, por paradoxal que possa parecer, a morte transforma o sublime ato em plenitude. Morrer d’amor talvez seja mais literariamente bonito do que apenas viver dele. Se Julieta não tivesse ingerido o veneno e levado junto Romeu, o seguir da vida deles com certeza dificilmente viraria peça. De Shakespeare ou d’outro qualquer...
Eu simplesmente adoro as canções antigas cujos versos, louvando as mulheres, tem imagens que beiram o exagero, é certo, porém fazem todo sentido. A Deusa da Minha Rua é uma seresta muito festejada, com letra de Jorge Faraj. Quando narra que a deusa da rua que encantava o personagem tinha os olhos onde a lua costumava se embriagar, já me fascina, de cara. Porém, adiante, há outro trechinho que me fascina mais ainda. É o que diz assim: “Nos teus olhos eu suponho/ Que o sol, num dourado sonho/ Vai claridade buscar”.
Algumas das letras mais emblemáticas de maravilhosos exageros que beiram, a meu ver, a condição de obras primas, são de autoria de Orestes Barbosa. Tem uma em que ele conta a história de um sujeito que, apaixonado depois de ter sido abandonado, se refugia numa casa noturna em busca de alguma alegria que julga estar no que chama de “a ilusão dos cabarés”. Mas acaba quebrando a cara, pois a figura da musa não sai de sua cabeça. Então a letra exibe a porrada final: “Quanto mais bebida eu ponho/ Mais cresce a mulher no sonho/ Na taça e no coração”.
Conheço vários exemplos, digamos, palpáveis, de que certas colocações que podem parecer exageradas de algumas letras se encontram no dia a dia da vida real. Lembro que no nosso barzinho sob as sibipirunas, na Chácara da Barra, meu mais constante amigo nos fins de tarde é o velho Aderbal. Que, por ser cultor das serestas que tantos encantos concedem à música brasileira, acabou montando uma coleção de gravações que tem vários exemplares até dos tempos do 78 rotações. Pois contei há algum tempo ao meu parceiro que queria escrever algo sobre o real e o irreal de certas letras. Ele então, assim de pronto, recordou um bolero nem tão antigo, de Armando Manzanero, chamado Contigo Aprendi. E a mim lembrou que, nele, o apaixonado, ao enumerar o aprendizado que com seu amor colheu, fala que com a moça sacou que a semana tem mais de sete dias e que, por causa dela, descobriu que há luz até no lado oculto da lua. Mas, de repente, Aderbal pega sua carteira de identidade e a coloca diante de mim. Como não entendi direito a razão, apenas murmurei um “bom, estou vendo que você nasceu em 1936; está, portanto, com 84 anos, uma bela idade”. Foi aí que meu amigo levantou o dedo e disse:
- Pois é, mas na verdade preciso tirar outro documento, pois na realidade só nasci em 1956.
- Como assim? – Arregalo os olhos.
- Simples – ele respondeu – pois, como o personagem da letra de Manzanero, eu só vim ao mundo no dia em que conheci a Genoveva, meu grande amor, num 23 de agosto daquele ano. Estamos juntos faz 64 anos... E olha, ali vem ela me apanhar.
Vejo então, a atravessar a rua, uma senhora com os cabelos mais alvos do que as neves do Kilimanjaro. E ela exibia, luminosa, o frescor e a beleza de uma adolescente de 17 anos. Se eu fosse compositor, dava canção.
Antonio Contente é jornalista e escritor.

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