Publicado 11/10/2020 - 09h56 - Atualizado 11/10/2020 - 09h56

Por


Ele estava no chamado “grupo de risco”, rondando os 60 anos. Segundo as autoridades sanitárias, os Coronavirus mantinham-se na campana à espera de algum descuido de Jatério, para pegá-lo. Mas isso não era fácil, pois o cara se cuidava. Sozinho, na vida e no mundo, morava numa casinha para os lados do Jardim Ipaussurama onde se isolou de forma total e peremptória. Debruçava-se nas janelas sim, mas antes tinha o cuidado de olhar para um lado e outro, e para o alto, a fim de verificar se o inimigo não estava a preparar o ataque. E, sem mais aquela, lá ia ele pra pia, lavar as mãos.
Mas a verdade acabou sendo que, com duas semanas, a quarentena ficou sofrida; nosso herói passou a experimentar certa ânsia de sair. Nada especial, nada fora dos parâmetros. Apenas queria, como era seu costume, trançar pernas pelas ruas do centro, parar no Café Regina para um moka em companhia do advogado Marcos Piconi e do professor Odair Borges; e pouco mais do que isso. Porém, sair como?
Foi quando viu, no Facebook, a indicação de que uma costureira, ali mesmo no bairro, preparava máscaras de pano que protegeriam de forma total qualquer contágio. Bateu o telefone para a moça, encomendou duas e, no dia marcado, foi buscar. Fez isso e passou a proteger nariz e boca como se o próprio lenço amarrado na cara fosse, tal qual os assaltantes das diligências no velho oeste.
Daí, naquela segunda-feira ele se aprontou para a ida ao centro da cidade. Vestiu camisa de mangas compridas, desentocou velho chapéu que não usava há muito tempo, e tascou, sobre os olhos, óculos de sol de lentes amplas. Finalmente, diante do espelho, colocou a máscara de pano. Vendo a imagem, passou pela sua cabeça um “santo Deus, desse jeito nem minha própria mãe seria capaz de me identificar”. Chamou o táxi por aplicativo. E se foi.
Ao descer, nas proximidades do largo do Rosário, Jatério se sentia amplo e liberto. A ajudar, pela graça de todos os deuses, o dia, mesmo quente, corria absolutamente deslumbrante. Céu de azul lavado, porém enfeitado, aqui e ali, por tufos de nuvens alvas, absolutamente imaculadas. Muito, muito mais brancas do que as neves do Kilimanjaro.
E Jatério pôs-se a andar. Camuflado do jeito que se encontrava, a sensação de segurança era tal que passou a ter certeza de que os Coronavirus presentes no ar ricocheteavam em sua máscara para cair, exangues e inúteis, nos pisos das calçadas.
E, na sua troca de pernas, como os bares e o café dos encontros estavam fechados, de repente se viu em frente ao velho Mercadão. Com passos seguros, imaginou que lá dentro talvez pudesse achar alguma biboca aberta, para encostar no balcão. E ali, como se fosse um ponto de observação, curtir o cenário.
Foi andando sem rumo que Jatério, de repente, avistou o impensável. Num escaninho espremido entre duas bancas de verduras simplesmente estava, a tomar um refrigerante, nada mais, nada menos, do que Eglédia. Que era não só o amor de sua vida, mas o amor eterno, a paixão irrecorrível que, contudo, dadas certas circunstâncias da existência, tinha hiatos. Sempre que a ficha da moça caia a revelar que Jatério era apenas um pobre aposentado sem eira nem beira, ela sumia. Porém, de repente, voltavam. Com cálidos ímpetos d’amor que só iriam se interromper adiante, com nova caída da tal ficha na cabeça de Eglédia. Como se ele estivesse com a cara à mostra se aproximou, seguro. Ela, porém, resvalando a vista sobre ele, logo desviou, por não o ter reconhecido. Ele, então, para. Disfarça como se escolhesse bananas na banca ao lado, porém com a atenção voltada para a dona. Por fim, resolve ir à ela. Dizendo:
- Você está sem máscara por que? Pensa que isso aqui é Estrela d’Oeste, onde o vírus ainda não chegou?
Eglédia quase deixa o copo cair, espantada. Por fim diz, apontando para o rosto dele:
- Jatério? Mas o que isso, Jatério?
- Estamos nos tempos da peste – ele faz um gesto.
Assim foi que, em instantes, os dois sentaram em mesinha de fundo no pequeno buteco, agora diante de uma cerveja. Para isso ele já arrancara do rosto a máscara e tirara da cabeça o chapéu.
Alguns dias depois, ambos contaminados pela peste medonha, resolveram, em consenso, que, como nunca tinham tido condições de viver juntos, pelo menos poderiam morrer sob o mesmo teto. E, afinal, dias depois, como a situação de ambos se agravou e foram removidos para o hospital, tudo indicava que subiriam para os prados celestiais do imponderável em coisa de horas.
E se estranha é a vida em tempos normais, mais estranha ainda fica em tempos de peste. Pois, numa tarde em que não conseguiu mais respirar, deu óbito, Jatério se foi. Quanto à Eglédia, pouco a pouco passou a se recuperar. E, ao sair do hospital, curadíssima, já estava noiva do médico, dez anos mais novo, que dela cuidou. Com ele completamente abatido pelo maduro e irresistível charme da coroa, que tinha mais força do que qualquer Coronavírus, qualquer peste, qualquer praga, qualquer Armagedon de princípios ou fins de mundos.
Antonio Contente é jornalista e escritor

Escrito por: