Publicado 04/10/2020 - 08h34 - Atualizado 04/10/2020 - 08h34

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Na verdade eu sempre tive grande fascinação pelas dunas. Aqueles vales e colinas que o vento esculpe nas areias por detrás das praias são caminhos abertos a um amplo navegar. Em realidades que parecem sonhos; e sonhos que a visão do real transformam em algo palpável. Como se você flutuasse num limite entre o possível e o impossível.
Então, naquele ano que como neste 2020 uma severa seca se abateu sobre Campinas, tornando o ar quase ralo pela secura da falta das chuvas. Aí, de repente, comecei a lembrar de Paquara, no litoral do Pará, a caminho da divisa com o Maranhão, lugar que a maioria dos próprios paraenses desconhece. Onde dormem, sob luares e despertam batidas pelo sol e pela ventania constante, algumas das dunas mais bonitas de quantas tenho visto nesta vida. Lá na Amazônia, ao contrário do frio que naquela época ainda fazia por aqui, era verão, época de chuvas fortes que se formam de repente, como dádiva às florestas e rios, e às flores, e aos pássaros. Mas, principalmente, à sublime magia das auroras, subitamente enfeitadas com o cintilar dos pingos de diamantes dos orvalhos. Peguei o avião e fui.
Paquara ainda hoje é rincão poupado. Lugarejo banhado pelo mar, habitado quase que exclusivamente por pescadores. E se, em julho, que é a temporada de verão por lá alguns turistas aparecem para ocupar duas pousadas muito simples, depois disso apenas os moradores se movem. A energia elétrica é minguada, o gerador a diesel funciona apenas entre 18 e 22 horas, permitindo a sobrevivência dos candeeiros, lamparinas e congêneres. As poucas geladeiras existentes são movidas a gás de botijão. Ou querosene.
Assim que chego o velho Josué, uma espécie de líder dos pescadores que sempre tem um quarto à minha disposição em sua casa, se espanta por me ver ali em fins de agosto, setembro chegando.
- Está buscando alguma coisa especial? – Pergunta.
- Estou – respondo – pura e simplesmente chuva.
Apontando no rumo da linha do horizonte sobre o mar, sorrindo, ele diz:
- Está vendo aquelas nuvens? Hoje você dorme com ela.
- É tudo o que quero. Batendo em cima da minha rede, no telhado.
Assim foi que no dia seguinte com o ar ainda mais purificado pelo pampeiro da noite, lá fui, levado por charrete puxada por um belo cavalo baio, em busca da praia que me levaria às dunas. Assim que coloquei os pés na areia da entrada que a elas conduz, senti que, naquele ano, nada de melhor, ainda, eu tinha feito. Comecei a andar. A princípio, sem rumo. Mas sabendo perfeitamente para onde ia. Já fazia quase uma hora que caminhava quando, de repente, vejo uma barraca amarela e vermelha, armada num trecho quase na divisa entre as elevações e a areia da praia propriamente dita. Fui me aproximando, com certa cautela, tentando imaginar quem poderia estar ali acampado, numa época de completa ausência de eventuais visitantes. Mesmo tendo concluído que deveria ser alguém que não queria ser incomodado, acabei por soltar a pergunta, ao vento:
- Alou. Tem alguém aí?
Como resposta, nada O que fez com que eu passasse a me sentir como se estivesse no cenário de uma peça de mistério. Agatha Christie em algo que poderia ter o título de O Mistério da Barraca.
- Vai ver – pensei – talvez existam cadáveres lá dentro.
Montei então, do local em que me encontrava, a cena de que encontraria na entrada da barraca dois chapéus, uma espingarda e um par de sapatos jogados. Dentro, estirados sobre caixotes, os corpos de três homens, talvez contrabandistas. Na testa de um deles, rombudo furo de bala. Nos corpos dos outros, escoriações generalizadas.
Para não ir mais longe com meus pensamentos resolvi ir ver tudo de perto. Pretendia perguntar novamente, já diante da entrada, se havia alguém; mas, ao invés disso, afastei a sanefa. E vi, tranquilamente a dormir sobre um colchão de vento, absolutamente nua, corpo perfeito, inacreditavelmente belo, maravilhosa moça. Algo que nunca poderia imaginar.
Assim, tão silenciosamente como cheguei dei meia volta e me fui. Até porque, pelas roupas de homem penduradas numa espécie de varal, deu para sacar que a beldade tinha companhia. Que deveria ter ido buscar água num regato que passava ao fundo.
De volta à Paquara me encontrava completamente envolvido pelo que vira. E, neste clima, fui tomar uma cervejinha no Buteco dos Pescadores. Com a imagem da fulaninha que dormia na barraca cravada em minha mente, como um punhal. Passa-se quase uma hora até que meu amigo Josué aparece. Logo perguntei, assim como quem não quer nada:
- E a barraca armada lá em cima nas dunas? Quem é que anda por aquela solidão, nesta época?
- Ah – ele respondeu – ele veio da vila de São João, aqui pertinho. Está esperando terminarem as obras na igrejinha de lá.
-Ué, esperando obra em igreja? Quem é? Algum santo?
- Não, é o novo pároco que mandaram de Belém, Padre Bífero. Um italiano paidégua que já morou aqui. Apesar de ser moço bem novo, já é um santo homem... Deve estar, no silêncio das dunas, entregue às orações.
- Eu não tenho nenhuma dúvida... – Respondi, antes de dar um gole na breja; e limpar a espuma da boca com a costa da mão.
Antonio Contente é jornalista e escritor

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