Publicado 20/10/2020 - 08h12 - Atualizado 20/10/2020 - 08h12

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- Sou ateu, graças a Deus.
Eis ai, nessa dicção brejeira, o homem a ironizar sua tragédia interior. 
Afirmação plena da insciência do ser na busca desordenada de si mesmo.
É uma perífrase, rodeio de palavras que traduz a angústia de quem, pressionado pela incógnita, atônito diante da origem, procura ridicularizar a força imanente da criação.
No lugar comum das coisas inconsistentes, a frase revela a anarquia do espírito que, mergulhado no caos da incerteza, termina por se arrastar, vaidoso, no chão das trivialidades.
. Um texto banal.
Uma oração gramatical aparentemente ingênua que, entretanto, tem o comprometimento de mascarar a dúvida.
- Ateu graças a Deus!
Uma gabolice de quem suspeita, pelo menos, que não se encontra sozinho, que vive à sombra do invisível
. Um fantasma a quem despreza enquanto o sol brilha, mas ao qual se segura angustiado, como náufrago sem rumo no mar encapelado, na hora incerta em que a noite desce.
Gustavo Corção, um dos maiores nomes da literatura brasileira do século findo, passando pelo transe, escreveu uma obra que convida à reflexão - A Descoberta do Outro, em que, dizendo de sua conversão, na qual não se exclui a surpresa do indefinível, fala do seu deslumbramento ao deparar com um companheiro silencioso que, sem dizer palavra, andava a seu lado, confidente.
E tem sido assim, ao longo deste mundo, toda vez em que a alma chora.
O que o velho escritor quis dizer - sobre si mesmo - campeia no interior do ser, do homem que, caminhando solitário no meio da multidão, presume de repente que não se encontra abandonado, que junto de seus passos, deslizando a seu lado, está a presença invisível que lhe dá sombra e ouve sua ânsia de vida.
É o imponderável que, independente de credo ou seita, se alteia dentro da pessoa para lhe oferecer uma noção repentina da verdade, definição mística da realidade perene.
E nesse instante, não adianta querer explicar, nas fronteiras do mundo, a forma da imagem.
. O que transcende é a consciência de um poder criador, da força difusa da vida - de onde exala no perfume da flor, o nome da Rosa.
No bolso de um soldado desconhecido, pracinha brasileiro morto no primeiro ataque a Monte Carmelo, foi encontrado, dizem, o seguinte bilhete em forma de poema:
- Escuta, Deus,
Jamais falei contigo, mas, hoje, quero saudar-te
Bom dia, como vais ?
Sabes, disseram-me que tu existias
Mas eu, tolo, não acreditei
Nunca havia reparado em tua obra.
Só, ontem à noite,
da trincheira iluminada por granadas
que descobri que me enganei
Não sei se apertarás a minha mão
Vou-te explicar e hás de compreender.
É engraçado!
Neste inferno hediondo, achei a luz para enxergar teu rosto.
Dito isto, já não tenho muito a te contar.
Sei apenas que tenho muito prazer em conhecer-te
Faremos um ataque à meia noite.
Já não tenho medo,
Deus, sei que tu velas.
Ah! O clarim!
Bem, Deus, devo ir-me embora.
Gostei de ti, vou-me despedir.
Será cruenta a luta, bem sabes.
E esta noite, pode ser que vá bater à tua porta.
Muito amigos, não fomos, é verdade
Mas ... Sim, estou chorando/
Bem Deus, tenho que ir.
Sorte é coisa rara.
Não importa.
Juro, já não mais receio a morte.
Assim tem sido a sorte do homem na inglória caminhada de sua vaidade.
Dono de si mesmo, dirige os próprios passos, desdenha da proteção, caminha armado contra os sonhos e investe com ironia zombando de sua origem , como Saulo na rota de Damasco até que a cegueira do orgulho o prostre vencido, envergonhado de si mesmo e humilde diante da realidade trágica que é a impotência de seu orgulho.
Manoel Maria Barbosa du Bocage, em que pese à sua genialidade de poeta, foi um irreverente e desbocado que povoou de tal forma o ideário português (com diatribes chulas contra a origem divina) que o seu nome passou a ter semanticamente o significado de herói das anedotas contra Deus.
Entanto, frente à presença assombrosa da morte, quando já se soltavam de suas mãos as rédeas da ironia, genuflexo, despojado de todo o orgulho, à hora extrema proclamou humilde:
Meu ser evaporei na insana lida
Do tropel das paixões que me arrasta,
Ah ! cego, eu cria, ah ! mísero, eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
A existência falaz me não dourava !
Mas eis sucumbe a natureza, escrava
Do mal que a vida, em sua orgia, dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos !
Esta alma que, sedenta, em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, ó Deus! Ganhe um momento
Os que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
Rubem Costa é jornalista, escritor, membro da Academia Campinense de Letras (ACL), Campineira de Letras e Artes (ACLA) e do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Campinas (IHGGC).

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