Publicado 18/10/2020 - 10h23 - Atualizado 18/10/2020 - 10h23

Por Da Agência Anhanguera

Entre janeiro e julho, foram feitos 9.951 transplantes; no mesmo período em 2019, o número foi de 15.827

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Entre janeiro e julho, foram feitos 9.951 transplantes; no mesmo período em 2019, o número foi de 15.827

Apesar da perda de mais de um milhão de vidas ao redor do planeta por conta da pandemia do novo coronavírus, ao menos um fator positivo tem sido computado no Hospital de Clínicas da Unicamp: a disposição das famílias em fazer a doação de órgãos de pessoas que perdem a vida por outras causas aumentou, segundo a médica Ilka Boin, chefe do transplante de fígado do HC.
A médica Ilka Boin, chefe do transplante de fígado do HC: "O impacto da doença parece ter mudado a disposição das pessoas em relação às doações"
“A queda da negação das famílias saiu de 45% para 38% durante a pandemia. Pode não parecer, mas é um número expressivo”, afirma Ilka. Segundo ela, a grande esperança neste período, e mesmo depois de a pandemia passar, é que a situação se mantenha. “O impacto da doença parece ter mudado a disposição das pessoas em relação às doações. Não deixa de ser algo positivo. Esperamos que continue assim”, afirma a médica do HC.
De acordo com a Unicamp, após queda significativa no número de transplantes durante os meses mais agudos da crise sanitária, a situação voltou a melhorar nas últimas semanas, quando mais transplantes passaram a ocorrer. A questão dos transplantes foi bastante afetada em todo o Brasil, principalmente porque a maior parte dos hospitais, ao direcionar toda a infraestrutura para o tratamento da Covid-19, não conseguiu dar conta de também realizar outras cirurgias de alta complexidade. Na Unicamp, o número de transplantes também caiu bastante, mas nem tanto por falta de doadores, ao contrário do que ocorreu em várias outras partes do país. No caso de Campinas, os dados mostram os registros de 92 doadores agora em 2020 contra 86 em 2019. Os números são relativos ao período que vai de janeiro à setembro.
Luiz Antonio Sardinha, coordenador da Organização de Procura de Órgãos: "Desde meados de setembro já registramos uma mudança de padrão"
“Desde meados de setembro já registramos uma mudança de padrão em relação aos doadores e receptores. A tendência é continuar assim”, diz Luiz Antonio Sardinha, coordenador da OPO (Organização de Procura de Órgãos) da Unicamp. Durante a pandemia, segundo o médico, os casos de morte por traumas e AVCs, por exemplo, diminuíram bastante. Segundo Sardinha, existem contraindicações para a doação de órgãos de pessoas contaminadas pela Covid-19.
Quadro segue a curva da pandemia
No Estado de São Paulo, mostram os números oficiais do governo, a quantidade de transplantes realizados acabou seguindo a curva da pandemia. Em março ocorreram 99 transplantes, depois foram feitas 82 cirurgias desse tipo em abril e 71 operações em julho. Em agosto, os registros mostram que 96 pessoas tiveram a felicidade de receber um órgão em hospitais do Estado de São Paulo.
No ano passado, apenas a Unicamp havia feito 312 transplantes entre janeiro e outubro em São Paulo. As principais cirurgias feitas no HC são relativas às doações de rim e fígado. Em 2017, o HC bateu o recorde de operações feitas em um ano, com a contabilização de 485 transplantes. Um dos grandes gargalos do país costuma ser a logística. No Estado de São Paulo, mais de 17 mil pessoas estão na fila para a obtenção de um órgão.
Governo fortalece a campanha 'A vida precisa continuar'
Neste ano, a pandemia do novo coronavírus fez com que as doações de órgãos no País caíssem 40% em comparação ao ano passado. Entre janeiro e julho deste ano, foram feitos 9.951 procedimentos deste tipo. No mesmo período em 2019, o número foi de 15.827. Até 31 de julho, havia 46.181 pacientes aguardando por um transplante.
Neste contexto, o Ministério da Saúde lançou no último dia 24 de setembro, durante a reunião da Comissão Intergestores Tripartite, a Campanha Nacional de Doação de Órgãos 2020. O tema da edição deste ano é “Doe órgãos, a vida precisa continuar”.
Todo ano uma nova edição da campanha é lançada em período próximo a 27 de setembro, quando é comemorado o Dia Nacional de Incentivo à Doação de Órgãos. A iniciativa de 2020 vem sendo divulgada por meio de peças promocionais em meios de comunicação. O intuito é sensibilizar a sociedade sobre a importância desta prática.
De acordo com o Ministério da Saúde, entre 2019 e 2020, a taxa de recusa das famílias à doação de órgãos reduziu levemente. Enquanto no ano passado o índice foi de 39,9% entre janeiro e julho, neste ano a taxa caiu para 37,2% no mesmo período.
Mas o número de notificações de doadores caiu 8,4%. Entre janeiro e julho de 2019 foram registrados 6.466 novos doadores, número que ficou em 5.922 em 2020.
A coordenadora do Sistema Nacional de Transplantes, Daniela Mourão, destacou que o Brasil tem o maior programa público relacionado ao tema. Segundo ela, o esforço agora será o de recuperar o patamar de transplante de órgãos do momento pré-pandemia.
“O desafio pós-covid é retomar as doações, organizar os hospitais que tiveram de paralisar por conta da pandemia. Teremos de ter atenção redobrada às listas de pacientes para avaliar se podem ser transplantados”, alertou.
A representante da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) no Brasil, Socorro Gross, destacou a situação brasileira pela existência do Sistema Único de Saúde e a possibilidade de pessoas sem recursos terem acesso a transplantes e enfatizou a importância desta prática.
“Um dos assuntos mais solidários que tem na vida é a doação de órgãos. Definimos solidariedade não como entregar as coisas que temos de mais, mas que é valioso para nós e para outros”, pontuou Gross.
O presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Wilames Ferreira, afirmou que os secretários municipais vão atuar para que gestores e profissionais possam se juntar ao esforço de conscientizar as famílias sobre a aceitação da opção da doação de órgãos. (Agência Brasil)

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