Publicado 11/10/2020 - 10h28 - Atualizado 11/10/2020 - 10h28

Por Francisco Lima Neto

Na década de 2000, a Unicamp teve consolidação total como um dos principais centros de pesquisa e ensino na América Latina: gigante

Cedoc/RAC

Na década de 2000, a Unicamp teve consolidação total como um dos principais centros de pesquisa e ensino na América Latina: gigante

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) completou 54 anos no último dia 5 de outubro. Data que marca o lançamento da pedra fundamental, em 1966. Contudo, ela já tinha sido criada por lei em 28 de dezembro de 1962. De lá para cá, a universidade cresceu em número de cursos e alunos. Mas cresceu mais ainda em qualidade e relevância. Apesar de ser considerada jovem, ela já é tradicional no ensino, na pesquisa e nas relações com a sociedade. Ano após ano figura entre as melhores do País e da América Latina.
O jornalista Luso Ventura: batalhador pela criação da universidade
Para falar da criação da Unicamp é preciso voltar bastante no tempo, lá na primeira metade do século passado. Um dos responsáveis pela instalação da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), o embrião da Unicamp, foi o jornalista Luso Ventura, chefe e diretor de redação no extinto Diário do Povo e no Correio Popular. Desde 1946, por iniciativa dele, Diário do Povo encampou a luta para a instalação de uma faculdade de medicina por aqui. Ele tratou do tema em mais de 200 publicações. À época, só existiam dois cursos de formação de médicos, o da Universidade de São Paulo (USP) e a Escola Paulista de Medicina, ambos na capital.
Sua campanha foi ganhando apoiadores e ficando cada vez mais reconhecida. Até que a lei que instituiu a Unicamp foi assinada em 28 de dezembro de 1962 pelo governador Carlos Alberto de Carvalho Pinto. No ano seguinte, a FCM foi autorizada a funcionar, de forma provisória, nas dependências da Maternidade de Campinas. Em abril do mesmo ano foi realizado o primeiro vestibular, que teve 1.592 inscritos para as 50 vagas existentes.
Somente em 5 de outubro de 1966 foi lançada a pedra fundamental para a construção da Unicamp. De 1965 a 1985, a FCM funcionou dentro da Santa Casa de Misericórdia após assinatura de convênio. Em 1986, se transferiu para a Cidade Universitária.
 
Histórico
Em 9 de setembro de 1965, o Conselho Estadual de Educação designou a Comissão Organizadora da Universidade de Campinas para estudar e planejar a formação e instalação de suas unidades, uma vez que somente a Faculdade de Medicina estava em funcionamento. A Comissão era composta pelos professores Zeferino Vaz (presidente), Paulo Gomes Romeo e Antonio Augusto de Almeida.
A pedra fundamental foi lançada no dia 5 de outubro de 1966: história
No ano seguinte, em 5 de outubro, a pedra fundamental foi lançada, numa gleba de 30 alqueires, doada por João Adhemar de Almeida Prado, no distrito de Barão Geraldo. Pouco antes, Vaz tinha se reunido com empresários para definir o perfil dos cursos a serem implantados. O Conselho Estadual de Educação autorizou a instalação e o funcionamento dos Institutos de Biologia, Matemática, Física e Química e das Faculdades de Engenharia, Tecnologia de Alimentos, Ciências e Enfermagem, e os Colégios Técnicos. Em 22 de dezembro Zeferino Vaz foi nomeado para o cargo de reitor.
A universidade cresceu muito rapidamente entre as décadas de 1970 e 1990. O campus passou a ter 19 institutos e faculdades. Com a morte de Zeferino Vaz, em 1981, o campus recebeu o nome dele. Assim que a construção do campus terminou, a Faculdade de Ciências Médicas — antiga Faculdade de Medicina de Campinas — mudou para lá. Em 1975, tinha sido lançada a pedra fundamental do Hospital de Clínicas, que depois de pronto se tornou o maior hospital público da região, com mais de 300 mil consultas anuais.
Na década de 1980, depois da morte de Vaz, durante a Ditadura Militar, houve uma crise entre o coordenador geral da universidade, indicado e apoiado pelo governo, e o Conselho Diretivo, composto por diretores de diferentes institutos. O reitor instituiu novas regras de redução do poder do coordenador geral. O governo estadual, como resposta, destituiu seis membros do Conselho Diretivo, colocando no lugar pessoas do Conselho de Educação Estadual que eram leais ao então governador Paulo Maluf.
As manifestações a favor da democracia sempre aglutinaram multidões nas dependências da Unicamp: voz ativa na luta por uma sociedade melhor
As tensões só aumentavam e o episódio foi considerado uma intervenção disfarçada. Com a expulsão de vários líderes de institutos e membros da administração, os trabalhadores administrativos entraram em greve, com o apoio de alunos e professores. As atividades ficaram suspensas e logo o governador declarou uma intervenção formal na universidade em outubro de 1981.
A greve se manteve firme. Os novos diretores nomeados para os institutos não conseguiram muita coisa. O movimento grevista se fortaleceu. No começo de 1982 foram abertos diálogos para a nomeação de um novo reitor. José Aristodemo Pinotti, ex-decano da faculdade de Ciências Médicas, considerado moderado, foi selecionado pela comunidade acadêmica e aceito pelo governador. Em 19 de abril de 1982, a intervenção foi cancelada e as atividades acadêmicas retomadas finalmente.
A situação melhorou a partir daí. Em 1983, o regimento interno foi reescrito, garantindo a autonomia da comunidade acadêmica. Em 1986, o recém-criado Conselho Universitário substituiu o Conselho Diretivo anterior como órgão máximo da universidade. O vestibular foi reformulado, houve a expansão dos laboratórios e a criação das primeiras unidades de moradia estudantil.
Consolidação a partir da década de 90
A partir da década de 1990, houve crescimento contínuo e a consolidação da Universidade Estadual de Campinas, graças à nova estrutura administrativa e autonomia. Houve aumento de cursos noturnos, como opção para os estudantes de baixa renda que trabalhavam durante o dia.
No período também ocorreu uma expansão da indústria de tecnologia na região, orbitando a Unicamp, como por exemplo, a Motorola, IBM, Solectron, Lucent Technologies e muitas outras empresas, que criaram laboratórios de pesquisa e centros de produção na região, motivadas pelo grande número de profissionais altamente qualificados que se formavam a cada ano.
Na década de 2000, a Unicamp teve consolidação total como um dos principais centros de pesquisa e ensino na América Latina, mas os altos gastos com funcionários, superando 90% do orçamento, frearam investimentos e expansão. Quadro ainda mais agravado por conta da crise econômica a partir de 2014. Mas atualmente, o déficit financeiro vem sendo administrado, sem que a universidade contraia novas dívidas. Além disso, a Unicamp vem impactando cada dia mais na sociedade com pesquisas, tecnologias, patentes, vestibular indígena e cotas raciais.

Escrito por:

Francisco Lima Neto