Publicado 16/09/2020 - 19h54 - Atualizado 16/09/2020 - 23h08

Por Gustavo Mazzola

Gustavo Mazzola, jornalista e membro da Academia Campinense de Letras

Leandro Ferreira/AAN

Gustavo Mazzola, jornalista e membro da Academia Campinense de Letras

O próximo 25 de setembro será o Dia do Rádio. Nessa data - nascimento de Roquete Pinto, pai da radiodifusão no Brasil -, vêm-me imagens de um belo trabalho cinematográfico de Wood Allen, “A era do Rádio”. É quando ele, com muita precisão e sensibilidade, foca o Rádio nas décadas de 40 e 50 nos Estados Unidos, seus formatos, posturas, modelos de linguagem, características que muito se assemelhavam ao que acontecia, também, aqui no Brasil.
Quem viveu em pequenas cidades do interior nesses anos, por certo ainda se lembra: as heroicas emissoras de rádio de ondas médias, com antenas de 100 watts, cujo sinal tinha um alcance limitado. Operavam a partir de uma mesa simples de dois pratos de 78 rotações - um de cada lado -, algumas chaves, um painel central com um botão de rotação suave e um marcador analógico de volume para modular o som. Do outro lado da janelinha envidraçada, bem iluminado, um pequeno estúdio dominava o ambiente, onde se destacavam o microfone “bolachão” em cima da mesa e uma luzinha vermelha acesa, indicando que o locutor estava “no ar”.
Assim era o rádio naquela época. Perdidas no meio do Estado, eram as queridinhas dos ouvintes, desde a região central, até os bairros mais afastados, mal chegando à zona rural. Isso, apesar de, na pequena cidade onde eu morava, a emissora local, solenemente, anunciasse, “Estão em sintonia com a Rádio Avaré, transmitindo para Avaré, São Paulo, Brasil!” Encantavam com seu bucólico romantismo, e até com passagens hilárias, que acabavam caindo no anedotário do dia a dia. Lembro-me de algumas delas, quando, aos quinze anos, adestrava-me, com orgulho, como seu Técnico de Som... e participasse de muitas dessas deliciosas histórias.
Aconteceu, um dia, por exemplo, que no final das transmissões - as rádios daquele tempo encerravam seus trabalhos no fim da noite -, o experiente e cansado “speaker”, depois de várias horas de trabalho, “fechou” tudo com o tradicional “Agradecemos aos nossos ouvintes pela sua atenção dispensada”. Aí a tal luzinha se apagou - microfone desligado! -, e ele resolveu se descontrair um pouco: pondo os pés em cima da mesa de trabalho, recostou-se na sua cadeira e disse alto e em bom som - somente para o Técnico ouvir: “E vocês todos vão para a...”, sem saber que, na verdade a luzinha tinha é se queimado. Sua demissão foi logo na manhã seguinte.
Apesar de toda a sua simplicidade, carência de recursos, sem contar com os sucessos musicais do momento, tínhamos os nossos expedientes. Numa saída meio sem vergonha, entrávamos clandestinamente em cadeia com os programas famosos da Rádio Bandeirantes, sempre em dia com o “hit parede” nacional. Aí a audiência crescia. Mas, às vezes, bobeávamos, e a Bandeirantes invadia o nosso prefixo. Era uma correria desligar tudo, bem rapidinho, depois aguardar os “pitos” da chefia, que sempre aconteciam.
E as Notas de Falecimento: eram anunciadas discretamente, sempre precedidas e encerradas por um sonoro gongo. Muitas vezes, o nome do falecido, por soar meio jocoso no ar, era acompanhado por risos incontidos do locutor, incentivado por algum engraçadinho lá dentro da Técnica, local de onde se operava a emissora. Era uma desgraça quando isso acontecia.
Um dia, descobrimos na discoteca uns discos de acetato de música instrumental, que rodavam durante dez ou doze minutos, ininterruptamente. Logo viraram um programa de música erudita para o fim da noite.
Então, o que fazíamos: botávamos o discão para tocar e, de mansinho - locutor e técnico - íamos para a frente da Rádio bater um papo, descontrair. Por azar, numa dessas “audições”, o disco empacou logo no começo, repetindo a mesma passagem musical, uma vez atrás da outra. Não é preciso dizer o que aconteceu, logo após a chegada inesperada do diretor da Rádio.
Outra vez, um curto-circuito literalmente “derreteu” as instalações da pequena sala da Técnica. Ficamos fora do ar por mais de dez dias, até que o responsável por aquela área conseguisse novas válvulas, fiações, dispositivos eletrônicos e tudo o mais, e conseguisse pôr a estação no ar.
Esses dois episódios serviram para mostrar como era ouvida a nossa Rádio e estimada: nunca recebemos tantos telefonemas de gente querendo saber o que acontecia com aquela emissora que, ou repetia cansativamente o mesmo trecho da mesma música, ou ficava muda quando era sintonizada. As explicações sobre o silêncio foram muito bem esclarecidas, no devido tempo. Mas sobre aquelas tais repetições nunca mais se falou no assunto.
Gustavo Mazzola é jornalista e membro da Academia Campinense de Letras - mazzola@sigmanet.com.br

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