Publicado 16/09/2020 - 09h39 - Atualizado 16/09/2020 - 16h05

Por

Marcos Inhauser, teólogo, pastor da Igreja da Irmandade e pastor corporativo

Reprodução

Marcos Inhauser, teólogo, pastor da Igreja da Irmandade e pastor corporativo

Há várias propostas de abordagem ao livro bíblico de Eclesiastes, o livro do Sábio: um cético, um desiludido, um desesperado, um filósofo da mediocridade ou ainda um pregador da alegria. Tenho para comigo que o autor é uma pessoa de idade, experiente nos percalços da vida, que terminava seus dias sem entusiasmo e descontente com o que havia vivido. Um deprimido? Talvez. Um amargurado? Provavelmente. Uma pessoa triste? Com certeza. Um sábio? Sem dúvida. De uma coisa todos concordamos: ele era tão humano quanto nós, porque ao lê-lo nos identificamos com suas experiências, frustrações e conclusões. Isto é ainda mais verdadeiro quando se refere ao binômio alegria/tristeza.
O Sábio afirma que “tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião.... Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar; tempo de chorar e tempo de dançar. Ao colocar alegria e tristeza como não concomitantes no tempo, mostra a impossibilidade de alguém sentir-se triste e alegre ao mesmo tempo. Quando passamos por tristezas, ainda que haja algum motivo para alegria, parece que ela sufoca ou nos cega para as coisas boas. Quando há motivo de alegria e em seguida surge algo que nos entristece, parece que a tristeza tem mais força que a alegria e prevalece nos nossos sentimentos.
Por mais que fujamos da tristeza, há um tempo para ela na vida. Não escolhemos ficar tristes. Alegria e tristeza são sentimentos que surgem em decorrência das circunstâncias, quase todas fora de nosso controle. Não há quem não busque a alegria e que não fuja da tristeza e mesmo assim a tristeza ocorre. E não há quem não queira eternizar a alegria e mesmo assim não consegue.
Se há tempo para tristeza e alegria, significa que elas não são eternas. No dizer do salmista, “o choro pode durar a noite inteira, mas de manhã vem a alegria” (30:5). A tristeza pode durar um tempo, mas não é eterna.
Há uma diferença na percepção humana da alegria e da tristeza: a alegria é sempre passageira e a tristeza duradoura. A alegria tem a estranha capacidade de nos anestesiar para as demais coisas da vida. O Sábio diz que “você não sentirá o tempo passar, pois Deus encherá o seu coração de alegria” (5:20). Ela nos inebria e só pensamos na causa da nossa alegria.
A tristeza, por sua vez, tem a capacidade de aguçar nossos sentidos, nos colocar em alerta geral, fazer pensar na causa da tristeza e em todas as consequências que ela traz.
O salmista diz ainda que a tristeza se aguça à noite: Estou cansado de chorar. Todas as noites a minha cama se molha de lágrimas, e o meu choro encharca o travesseiro (6:6). A tristeza tem a capacidade de ser mais aguda quando queremos dormir. É quando ela dói mais, que a cama se transforma em espinheiros e o travesseiro em pedra.
A vida é cheia de alegrias e tristeza e nenhuma das duas é eterna. O Sábio inverte esta lógica chamando a atenção para os perigos da alegria e para os benefícios da tristeza. Ao fazê-lo redimensiona a percepção destes sentimentos e nos dá a chance de tirar lições para viver sabiamente.
Marcos Inhauser é teólogo, pastor da Igreja da Irmandade e pastor corporativo

Escrito por: