Publicado 15/09/2020 - 09h58 - Atualizado 15/09/2020 - 09h58

Por Estadão Conteúdo


Lucas Uebel/Grêmio

A Copa Libertadores volta a ser disputada nesta terça-feira após seis meses de paralisação e com uma realidade bastante complexa para clubes, dirigentes e principalmente para a própria Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol). Para concretizar o retorno do torneio em meio à pandemia do novo coronavírus, a entidade investiu cerca de R$ 500 milhões no custeio de viagens em voos fretados e testes RT-PCR para as equipes. Mas isso não foi suficiente para resolver o temor de alguns times em viajar pelo continente, em especial quando se trata de enfrentar adversários brasileiros.
O Estadão apurou com fontes na Conmebol que dois países manifestaram preocupação com o Brasil, nação com o maior número de casos e mortes por covid-19 na América do Sul. Chile e Uruguai questionaram a segurança tanto de virem ao País como até de receberem em seus estádios e hotéis equipes brasileiras. Procurada para comentar o assunto, a entidade avisou que não se manifestaria.
A Conmebol elaborou um protocolo médico de cuidados com a proposta de que os times viajem pela América do Sul dentro do que tem sido chamado de "bolhas móveis". Os elencos se deslocam com o mínimo de contato externo possível. As viagens são em voos fretados e exclusivos para a delegação. A hospedagem será em hotéis com alas isoladas, além da rotina de testes e os jogos em estádios sem torcida. Ainda assim, para especialistas há um risco calculado.
"Nenhuma bolha é impenetrável. Por mais que se aprimore, não é 100% seguro", disse o infectologista argentino Tomás Orduna, chefe de Medicina Tropical do Hospital Francisco Muñiz e consultor médico do Boca Juniors. "É perfeitamente normal que alguns países tenham medo de receber times do Brasil. No Uruguai, por exemplo, a pandemia está controlada. Mas ter de receber times de fora significa que pode voltar a ter transmissão comunitária com pessoas infectadas e assintomáticas", explicou.
As equipes uruguaias do Peñarol e do Nacional foram procuradas para comentar se estão receosas com os jogos e não quiseram se manifestar. Mas um time argentino que virá ao Brasil admitiu se sentir inseguro. O Defensa y Justicia tem viagem prevista para enfrentar o Santos, na Vila Belmiro, no mês que vem. "Nós vamos tomar todas as precauções necessárias seja no estádio ou no hotel. Mas vamos cruzar os dedos para nada acontecer no Brasil", afirmou o presidente do clube, José Lemme. O elenco teve seis casos positivos da doença recentemente.
Os cuidados da Conmebol com a Libertadores provocaram algumas mudanças na tabela. Rival do São Paulo no Grupo D, o Binacional, do Peru, não vai mais mandar os jogos na cidade de Juliaca, a cerca de 3,8 mil metros de altitude. O governo peruano proibiu partidas para fazer a localidade cumprir uma quarentena rígida. O time vai atuar agora na capital Lima. Adversário do Palmeiras, o Guaraní, do Paraguai, vai mandar as partidas em um outro estádio em Assunção para poder atender com mais segurança ao protocolo médico.
SEM QUARENTENA NA VOLTA - Segundo especialistas em infectologia ouvidos pela reportagem, o maior problema da Libertadores não está tanto antes e durante as partidas, mas sim no pós-jogo. A avaliação é que seria necessário os elencos permanecerem em quarentena por uns dias depois do retorno aos respectivos países Porém, no caso dos clubes brasileiros, logo depois de partidas fora de casa na Libertadores, o calendário continuará normalmente, com treinos e compromissos no fim de semana pelo Campeonato Brasileiro. Ou seja, não haverá quarentena e a rotina seguirá normalmente.
"A quarentena seria uma medida prudente, principalmente em se tratando de outros países da América do Sul, onde a situação está mais controlada como no Uruguai. Isso ajuda o resto da população a ser protegida", explicou a médica da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) Tânia Chaves. "Ainda não é o momento de viajar pela América do Sul e acho que seria preciso uma quarentena de alguns dias depois que os times voltassem", defendeu o professor de infectologia da faculdade de Medicina de Córdoba, na Argentina, Hugo Pizzi.
Essa medida de quarentena foi aplicada com bastante rigor na China. Jogadores brasileiros que retornaram ao país asiático para a disputa da liga local permaneceram duas semanas trancados em quartos de hotel. Já para o médico da seleção brasileira feminina de futebol, Nemi Sabeh, o isolamento dos times no retorno não se faz necessário porque a rotina de testes RT-PCR no Brasileirão garante a segurança. "Os exames de rotina vão mostrar se tem alguém infectado. Se alguém tiver caso positivo, será colocado em isolamento e não vai participar das partidas seguintes", afirmou.

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