Publicado 27/09/2020 - 09h33 - Atualizado 27/09/2020 - 09h33

Por Gilson Rei

Reflexos: Rede Mário Gatti prepara 36 novos leitos para pacientes de Covid-19

Leandro Ferreira/AAN

Reflexos: Rede Mário Gatti prepara 36 novos leitos para pacientes de Covid-19

A pandemia da Covid-19 consegui expandir o atendimento na rede hospitalar do Sistema Único de Saúde (SUS) em Campinas e deixou como principal legado o senso de solidariedade na área da Saúde. Além da maior estrutura nos hospitais, os seis meses de pandemia incorporaram um novo conceito sobre saúde na população e maior flexibilidade e agilidade no sistema de atendimento médico — ao unir novos procedimentos, teleatendimento e tecnologias complementares nas redes pública e privada de toda a cidade.
A constatação foi revelada pelo secretário municipal de Saúde, Carmino de Souza, que destacou nesta semana a palavra “solidariedade” como sendo o grande legado deixado pela pandemia da Covid-19, lembrando que o vírus continua circulando e que a guerra contra o inimigo ainda não acabou. “Temos ainda que manter a guarda”, alertou Carmino.
Em seis meses, Campinas registrou mais de 32 mil casos da doença e perdeu mais de 1,2 mil vidas. “O triste quadro só não foi mais trágico porque a maior parte da população respeitou as regras de isolamento e distanciamento, além das medidas de higiene, uso de máscaras e indicações de prevenção”, comentou Carmino.
Houve também a ação fundamental de toda a área da Saúde com uma grande união dos administradores de hospitais e uma irmandade entre médicos, enfermeiros e profissionais da Saúde na linha de frente do enfrentamento. “Essa união permitiu ajustes rápidos na estrutura para manter a qualidade nos atendimentos, de acordo com as demandas que foram surgindo”, afirmou.
Carmino lembrou que a Prefeitura contratou leitos na rede particular para atender a população pelo SUS, unindo-se à estrutura dos hospitais municipais Mario Gatti e Ouro Verde. Apenas com isso, a rede SUS municipal passou de 90 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em fevereiro deste ano, para 210 leitos atualmente. Somente depois de vencer a pandemia é que estes leitos poderão ser recontados, mas haverá ganho na estrutura. Vale lembrar que não estão incluídos neste levantamento os leitos UTI da rede estadual (HC Unicamp e AME), que também são do sistema SUS.
Voluntários
Outra mudança foi a grande contribuição de empresas e voluntários neste período, com doações de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs); aparelhos hospitalares; produtos de higiene; medicamentos e muita solidariedade. O secretário destacou a união de forças. “Ficamos juntos numa grande guerra, em ações conjuntas do Poder Público, da Saúde Pública, da Saúde Privada, da sociedade como um todo e outras áreas”, disse.
“Atuamos no mesmo lado da trincheira contra um inimigo comum, agressivo e extremamente infectivo e desconhecido”, comentou. “Todos perceberam a importância de cada ator neste processo. Houve também uma grande solidariedade da sociedade, incluindo empresas, população e voluntários de diversas frentes em todos os sentidos”, concluiu.
SUS fortalecido
Carmino afirmou que o SUS foi muito fortalecido de todo esse episódio. “O sistema público ficou muito fortalecido, mas o sistema privado também ficou fortalecido. Juntos, nesta grande guerra contra a Covid-19, os dois sistemas melhoraram em vários aspectos no atendimento médico para a sociedade. Além disso, a Saúde como um todo acabou sendo vista de uma outra maneira”, disse.
Quanto à estrutura de atendimento médico, Carmino revelou que - quando a pandemia foi declarada - houve um teste no limite na estrutura hospitalar da cidade. “No início, não sabíamos o quanto nós teríamos que ter estrutura para suportar toda a avalanche da epidemia. Tivemos que ter estruturas complementares, pois só a estrutura pública original da cidade não seria capaz de fazer todo esse enfrentamento”, disse.
Estrutura provisória dá suporte ao atendimento
Uma estrutura provisória foi criada tanto na rede pública como na rede privada. “Um Hospital de Campanha foi aberto com 84 leitos. Abrimos e usamos no período necessário. Fechamos quando não precisava mais. O AME estava pronto para ser inaugurado com uma estrutura privilegiada e pudemos usar como estrutura exclusiva para a Covid-19”, exemplificou o secretário de Saúde, Carmino de Souza.
Carmino lembrou que o HC da Unicamp aumentou também seus leitos e o Hospital Mário Gatti reverteu uma quantidade enorme de leitos. Segundo ele, o Hospital Ouro Verde transformou uma UTI pediátrica em UTI adulto. “Isto foi possível porque um fato novo veio com a pandemia. Houve redução no número de doenças entre crianças”, disse.
Houve também um ajuste da estrutura para atender à nova demanda. “Isso não é fácil de fazer. Na área privada, por exemplo, a Casa de Saúde foi transformada em hospital exclusivo para a Covid-19”, comentou. Algumas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) também foram adaptadas, como o caso da UPA Carlos Lourenço.
Rede de atenção primária ganha nova sistemática
Um legado importante deixado foi a nova sistemática criada em toda a rede de atenção primária da cidade pública e privada, que é feita antes de encaminhamentos aos hospitais. Segundo o secretário de Saúde, Carmino de Souza, foram criadas linhas diretas de atendimento de pacientes com síndromes gripais. “Estas linhas diretas atenderam fisicamente mais de 55 mil pessoas e pelo teleatendimento houve mais de 120 mil pessoas atendidas”, comentou.
A rede de atenção primária atuou de maneira decisiva nesse controle. “É um atendimento direcionado e detalhado. O paciente que não apresenta um estado clínico grave e que não tem nenhum indício de agravamento, por exemplo, é isolado junto com a família e testado”, explicou.
O paciente é também monitorado diariamente por teleatendimento e orientado sobre o tratamento. “Caso haja algum sinal de agravamento, ele volta para o serviço médico presencial e, se necessário, é internado”, disse. Carmino explicou que, com isso, o serviço de testagem foi expandindo para todas as pessoas com sintomas gripais, diferente do que ocorria no início da pandemia, quando realizavam testes PCR apenas nos casos mais graves.
Ao longo do tempo a testagem melhorou muito. “Na 28ª semana, em julho, nós tivemos até 75% de positividade nas testagens e hoje está inferior a 10%. A taxa de transmissão caiu muito. A possibilidade de fazer testes em larga escala deu muita segurança ao sistema. As pessoas com o vírus já passam para o isolamento e para o acompanhamento efetivo”, afirmou.
Surgiu também um projeto piloto muito importante na região Sudoeste para detecção da hipoxia silenciosa (baixa concentração de oxigênio), feita nos idosos em suas residências. “Isto foi possível devido a uma doação de 275 oxímetros do Banco Itaú e uma parceria com o Instituto Estáter e a Sociedade Brasileira de Infectologia. As visitas foram realizadas pelas equipes de Saúde. Quando identificaram a baixa oxigenação, a pessoa foi levada à Unidade de Saúde para atendimento presencial e testagem”, disse.
Essas ações foram também legados importantes. “Essa atenção primária e o teleatendimento são duas coisas importantíssimas que surgiram e que devem ficar daqui para frente. Eu acho que no mundo mudou a visão do atendimento à saúde. O próprio Conselho Federal de Saúde aceita hoje a telemedicina e regulamentou o teleatendimento”, afirmou.
Organização e apoio colaboram com sistema
O fato de Campinas ser uma cidade privilegiada e o surgimento de flexibilidade entre as redes de Saúde foi destacado pelo secretário de Saúde, Carmino de Souza. “Quando a pandemia chegou, por exemplo, fizemos um cálculo sobre o uso de respiradores. Vimos que o município contava com cerca de 670 respiradores e que não seria necessário comprar”, disse.
No momento necessário, a cidade contou com apoio do Estado e da Federação. “Na 28ª semana, que foi o pico da pandemia na cidade, Campinas recebeu 35 respiradores dos governos estadual e federal, que ajudaram e complementaram a demanda. Desse total, dez foram alocados na Santa Casa; dez na UPA Carlos Lourenço e os cinco restantes na rede Mario Gatti”, comentou o secretário.
Carmino revelou também que, além disso, Campinas não teve custo para montar o Hospital de Campanha, devido à ajuda dos Expedicionários da Saúde (EDS) e seus parceiros, que montaram toda a estrutura. “A estrutura ainda está montada como prevenção. Foi importante este apoio, pois são leitos individuais, com filtração aérea e toda a qualidade necessária”, afirmou.
Além disso, o Hospital Metropolitano, que estava fechado, foi reaberto como Covid-19. “Ou seja, privilegiamos as estruturas que já existiam e criamos estruturas provisórias que agora estão sendo desativadas, incluindo o AME”, afirmou. Outro fator importantíssimo, segundo Carmino, foi o serviço realizado pelo Hospital da PUC, que atuou como retaguarda nos casos de atendimentos não Covid-19. “Foi fundamental para segurar toda a demanda da não Covid-19, principalmente nas cirurgias cardíacas e oncológicas”, afirmou.
A flexibilidade definida entre as redes pública e privada foi também um grande legado, segundo Carmino. “Houve uma reformatação de todo o sistema, adequando às realidades e necessidades, com muita prudência. Com muita sabedoria foi criado um comitê para avaliar os dados e fazer um planejamento para duas semanas”, disse.
Carmino explicou que as ações conjuntas foram importantes. “Ações de caráter administrativo, logístico e jurídico são definidas de modo que haja agilidade e qualidade para atender as demandas sem desrespeitar as regras e as leis. Este foi um grande legado também da pandemia”, afirmou.

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